Família

Caminho de Santiago com o cão? Se tem mais de 10 quilos não pode regressar de comboio

João e Suki andaram sete dias a pé. Na vinda para Portugal, as coisas complicaram-se e valeu-lhes um português que os foi buscar.
Em Santiago, na Galiza.

Fazer os Caminhos de Santiago de Compostela é algo que muitos têm nos seus planos, com os vários percursos a serem percorridos anualmente por milhares de pessoas. João Pedro Gomes, um triatleta que leva a sua cadela Suki sempre que pode, decidiu fazer o Caminho português até àquela cidade espanhola e a sua Weimaraner de três anos não ficou de fora. E tudo correu muito bem – até ao regresso, que se revelou problemático por Suki ter mais de 10 quilos. Valeu-lhes um compatriota que foi de propósito buscá-los no seu carro.

Para João, de 40 anos, “fazer os Caminhos com a Suki foi a melhor companhia que podia ter tido”. “Apesar de porte grande, é uma Weimaraner, está habituada a fazer trilhos comigo e a conviver com pessoas e outros animais, pelo que foi um caminho bastante divertido e de companheirismo. Aliás, de tão social que é, volta e meia ia à procura de festas dos outros peregrinos que tínhamos visto nos dias anteriores”, conta à PiT.

O percurso começou em Ponte de Lima. “Chegámos a meio da tarde e como não encontrámos alojamento petfriendly, dormimos no carro”, explica. No dia seguinte puseram-se a caminho – e não podia ter sido melhor. “Foram sete dias de caminho e felizmente encontrámos sempre sítio para dormir, mas não há muitos”, sublinha.

“Na última noite, antes de chegarmos a Santiago, tivemos que dormir na tenda que levei desde o primeiro dia para o caso de não encontrar alojamento. Dormimos no jardim de um senhor muito prestável. A condição dele, para eu entrar com a Suki, era acampar no jardim, podendo usufruir de tudo o resto. Claro está que, durante esse final de tarde e noite, a Suki foi o centro das atenções dos restantes hóspedes peregrinos”, diz João.

No dia 12 de setembro, assim que chegaram a Santiago, João foi à estação de comboios comprar bilhete para voltar a Portugal no dia seguinte. E foi então que tudo se complicou. “Na bilheteira disseram-me que só admitiam animais até 10kg e com transportadora. Ao que parece, só em alguns percursos em Espanha é que admitem animais com peso superior a 10kg, pelo que tive de arranjar alternativas”, conta à PiT. Mas continuou a ser difícil.

“De autocarro estava fora de questão, porque para além de ser necessário uma transportadora enorme, que provavelmente não iriam aceitar devido ao seu volume, não a queria pôr na bagageira do autocarro pela falta de condições que iria ter”, explica João Pedro Gomes.

Posto isto, “tentei arranjar boleias através da app Blablacar pelo menos até à entrada de Portugal, para depois conseguir circular dentro dos comboios da CP. Uma vez mais sem sucesso, visto que os proprietários dos carros tinham receio que a Suki fizesse necessidades ou vomitasse dentro do carro”, conta.  “Sendo a Suki um animal que está mais que habituado a viajar de carro, isso não iria acontecer, mas só há que respeitar e está tudo bem com isso. Só ia ficar com o carro com pêlos”, diz com um sorriso.

Caminho
Chegar a Santiago acabou por ser o menos complicado.

Ao ver-se perante estas impossibilidades, João começou a entrar em contacto com amigos, que lhe disseram que havia um grupo no Facebook dos Caminhos de Santiago. “Surpreendentemente, num curso espaço de tempo a publicação chegou a inúmeras pessoas disponíveis a ajudar – e até me emocionei”, conta.

“Desde camionistas, malta que chegaria passados dois dias a Santiago e que nos podia dar boleia até Valença, até a uma senhora que se encontrava de férias e que iria de propósito de Portugal para nos ir buscar – e que, segundo ela, aproveitava e também passeava –, muitas pessoas quiseram ajudar” neste grupo onde João pediu ajuda e que se chama “Caminho Português – Porto a Santiago de Compostela”. “Os comentários ao post foram tantos que não consegui visualizar tudo em tempo útil. Se não fossem as mensagens privadas, não tinha visto as ajudas”

Por entre esses contactos, “surge outro senhor extraordinário que me envia uma mensagem a dizer que se disponibilizava a ir buscar-nos logo no final da manhã seguinte, ou seja, um dia após termos chegado a Santiago”, diz João. “Digo que sim, que agradeço a boleia, e o senhor responde: ‘dentro de 10 minutos arranco’. Veio de propósito da zona de Viana de Castelo e ainda me perguntou se precisava de mais alguma coisa. Passadas duas horas lá estava o Sr. Luís [Luís Pedro Pinheiro]. Pôs o carrinho de bebé na bagageira e a Suki ficou deitada (veio a dormir o caminho todo) nos bancos de trás”, conta João.

“Foi  muito simpático e prestável –  o que fez não tem preço. Deixou-me a escassos centímetros do meu carro e o meu obrigado foi pouco pelo coração gigante que teve por um mero desconhecido. E recusou qualquer dinheiro da minha parte para cobrir os custos e o tempo gasto da viagem”, sublinha João Pedro Gomes, que nunca esquecerá este gesto.

O resto da viagem até ao Ribatejo – João e Suki vivem em Almeirim – “foi feita no meu carro”. E num instante, com a ajuda de um compatriota, estavam de regresso a casa.

Os conselhos para um Caminho sem sobressaltos

Sobre toda esta experiência, João tem vários conselhos a quem quiser fazer o Caminho com o seu cão. Antes de mais, há que “ter a verdadeira noção da capacidade física e resistência do cão. Nem todos conseguem fazer o caminho, por mais que sejam energéticos. Uma coisa é fazer 17-20 quilómetros num dia isolado, outra é fazê-lo durantes vários dias seguidos”.

Importa também “não esquecer de hidratar as patas todas as noites com creme próprio para evitar feridas”, recomenda, e “não esquecer de levar o passaporte canino, já que vai para fora de Portugal”. Por último, “divirtam-se durante o percurso, porque a conexão entre dono e cão vai aumentar e muito”.

“Não deixa de ser curioso o facto de, em muitas lojas, farmácias e mesmo restaurantes em Espanha já aceitarem animais, e depois nos transportes públicos ainda existir uma certa limitação”, refere o atleta de triatlo – que, por isso mesmo, considera que o ideal, para que quem faça o Caminho com um animal, será ter alguém para o ir buscar. “Outra alternativa que ponderei foi arranjar um hostel canino que pudesse receber a Suki. Deixava-a lá, seguia sozinho até Ponte de Lima para ir buscar o carro e depois voltava novamente a Santiago para a ir buscar”. Mas, felizmente, não foi preciso devido à solidariedade portuguesa.

Percorra a galeria para ver algumas fotos deste Caminho feito por João e Suki, a sua companheira canina nesta aventura.

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