Família

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Carlos tinha seis meses para viver. Já lá vão quatro anos, e cada dia é aproveitado ao máximo

O felino recebeu um diagnóstico de epilepsia que lhe dava seis meses para viver, mas já ultrapassou a data.

Na casa de Camila havia espaço para mais um gato. No coração dela cabiam muitos mais, mas a responsabilidade falava sempre mais alto e travava essa vontade. A busca por mais um membro para a sua família levava-a a perder a noção do tempo pelos anúncios, pelas visitas ao abrigo e pelos cantos das ruas onde parecia ouvir gatinhos. Há anos que ajudava os animais, e a vida tinha-lhe dado alguns e tirado outros.

Numa das visitas que nos fez, conheceu dois irmãos. Ainda não tinham nome mas eram inseparáveis. No meio daquele quadro enternecedor existia a necessidade de encontrar uma família para ambos mesmo que, para que ambos conseguissem encontrar o seu lar, os tivessem que separar. Ela era mais mexida e ele era mais reservado. O pêlo cinzento era hipnotizante e o olhar que oferecia era irresistível. Ficara automaticamente dentro do coração de Camila sem saber. Pouco tempo depois deu-se a adopção dele, e a irmã veio junto. Camila não tivera coragem de os separar e assim ambos ganharam uma família.

Embora a felicidade fosse grande, o estado dele gerava preocupação. Aos poucos foram surgindo pequenas alterações no seu comportamento e pequenas crises começaram a preocupar Camila. Depressa veio o diagnóstico de epilepsia e uma incerteza quanto à sua esperança de vida. O sol que brilhava em casa deixou-se cobrir com nuvens de incerteza quando o pequeno Carlos, o nome que lhe dera, se mostrava mais frágil. O diagnóstico dera-lhe seis meses de vida e uma angústia no coração de Camila. Sentou-se. Chorou. Abraçou-o e disse: “é o tempo que tiver de ser, mas vai ser o melhor tempo das nossas vidas”.

Os dias tornaram-se semanas. As semanas deram lugar aos meses e a saúde de Carlos foi estabilizando. Embora para um gato nestas condições o ideal seja estar sem outros gatos o Carlos conseguiu encontrar o seu equilíbrio naquela casa com muitas irmãs e tem vindo a superar cada desafio. Os seis meses já lá vão. Caminha para o seu quarto aniversário, e o coração não podia estar mais feliz porque a vida pode ser um sopro mas o amor pode ser um furacão. 

Nos dias que correm os diagnósticos podem falhar. as previsões podem ser apenas isso: previsões. O Carlos chama-se Carlos Filipe porque foi graças a mim que a adopção se concretizou. Continua a vir visitar-me, dando-me notícias da sua vida e dizendo-me sempre ao ouvido que os medicamentos ajudam muito mas o amor será sempre o remédio mais forte.

Carregue na galeria para conhecer o gato Carlos.

AMIGOS PARA SEMPRE by Carlos Filipe é uma rubrica quinzenal da PiT, em que o fotógrafo Carlos Filipe, amante da causa animal, partilha com os nossos leitores o que viveu com os cães que fotografou e com quem privou. “Cães imperfeitos”, esquecidos pelo tempo e desprezados por quem quer adotar, por serem velhos ou doentes e exigirem cuidados.

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