Família

Clara de Sousa: “Sou incapaz de dar dinheiro para comprar um cão”

A jornalista da SIC, que adotou os três gatos e dois cães que tem, apela ao apoio dos portugueses às associações.
Clara de Sousa é tutora de dois cães e três gatos.

Clara de Sousa tem animais desde que se lembra de si. A jornalista, de 54 anos, vive atualmente rodeada de dois cães e três gatos. Um destes chegou a sua casa porque a filha, Maria, o trouxe da Madeira. “Tenho de lhe meter um travão, porque ela quer sempre salvar todos os animais do mundo”, conta.

Em entrevista à PiT, a pivô do “Jornal da Noite”, da SIC, recorda a época em que era criança e ensinou um Pastor Alemão — que apareceu em sua casa e se veio a descobrir depois que tinha dono — a fazer habilidades. Fala das preocupações com o abandono de animais e do amor que sente por eles. Isto depois de, há cerca de um ano, ter perdido Urfi, uma companheira de 11 anos.  

Os animais sempre fizeram parte da sua vida.
Sou muito ligada a eles desde criança. Vivi a fase em que havia animais em casa para consumir – os coelhos, as galinhas -, mas felizmente isso acabou. Prefiro não passar por isso. Mas também sempre tive muito a companhia de cães. Lembro-me que, um dia, apareceu um em minha casa que já era adulto. Era tipo Pastor Alemão e ficou comigo. Eu pensava que ele estava perdido, mas ele tinha dono. Quando este descobriu que o cão estava em minha casa, percebeu que nós já estávamos tão ligados que o deixou ficar connosco. Eu tinha uns 18 anos.

E como foram esses tempos com esse cão?
Olhe, fui comprar um livro e estive a ensiná-lo, durante meses a fio, montes de habilidades. Ele aprendeu depressa, era um cão super inteligente e que morreu já bastante velhinho. Portanto, esta ligação, esta coisa de passar tempo com cães – e agora com gatos – faz-me muito bem. Desde estar a brincar com eles a ir dar um passeio pela serra, até estar em casa no sofá e ter um gato aconchegar o peito… parece que nos liberta as energias más do dia. Como se costuma dizer, os animais são nossos amigos. E são nossos amigos mesmo quando, muitas vezes, os donos os tratam mal e isso é que torna mais revoltante as agressões sobre eles.

Participou numa campanha contra os maus tratos a animais com a Mia e o Kiko. Deu para perceber que eles são completamente diferentes um do outro…
Sim, sim. A Mia tem um ano e pouco, é uma ‘criança’. O Kiko já tem 11 e é um pachorrento. Eu chateio-o muito com ela e meto-a de castigo (risos).

Foram os dois adotados?
Todos os meus cães e gatos foram adotados ou dados. Só há um cão que eu adoraria ter e sei que, se um dia o quiser mesmo, ou alguém me oferece ou então vai ser complicado, que é um Border Collie. Eu gosto de ensinar e sei que esta raça aprende facilmente, tal como os Labradores.

Quantos gatos tem?
Três. E a minha filha [Maria] queria mais um, mas eu disse-lhe que não (risos). Eu gosto de ter casais — um cão e uma cadela, um gato e uma gata —, só que a minha filha trouxe um gato da Madeira e pronto… lá ficou ele em nossa casa.

Cães e gatos dão-se bem?
Todos bem. A questão é que tem de haver um ponto final. Eu tenho uma casa grande, mas três gatos e dois cães chega. Tenho de meter um travão à Maria, que quer sempre salvar todos os animais do mundo, o que é insustentável. Ela e todas as pessoas podem ajudar de outra maneira, através do apoio às associações, podem ser madrinhas de animais… Além disso, não quero ser a velha dos animais. Dois cães e três gatos já chega (risos).

E como é que eles são: mais pachorrentos como o Kiko ou mais rebeldes como a Mia?
Há uma que nem se deixa apanhar, mas depois tenho um que é o mais perfeito do mundo. É aquele gato que toda a gente quer ter: que se deixa apanhar, que abre portas, que é peludo, que quer estar sempre com as pessoas, que faz ronrom… É maravilhoso. 

A Clara nasceu e cresceu, como já mencionou, com uma postura diferente da que tem atualmente em relação aos animais para consumo caseiro. O que a fez mudar?
Olhe, acho que há uma mensagem social que tem passado de forma muito positiva ao longo dos anos e que é muito diferente daquela que a minha geração recebia. Quando eu tinha dez, 11 ou 12 anos, o cão era um animal muito funcional. Era um cão que estava muitas vezes preso com uma corrente para não fugir…

Ainda hoje existem muitos assim.
É verdade, mas hoje em dia, se eu vir um cão preso a uma corrente, isso choca-me. Na altura não me chocava. Fazia parte, era normal. O tal Pastor Alemão não, mas o meu pai tinha um cão preso com uma corrente. Só que era uma corrente com uns 30 metros e ele podia andar ali. Ele não o queria livre para não destruir as couves, o quintal… aquelas coisas. Isso hoje faz-me muita confusão. Tal como me faz confusão ver um animal perdido numa estrada ou fazem-me confusão as matilhas de rua. Tento logo contactar alguém e ver o que se pode fazer.

Portanto, mudaram-se os tempo, mudaram-se mentalidades. Ou vão-se mudando.
Sim. Os jovens de hoje têm uma forma diferente de ver todas estas questões, uma forma diferente daquela que eu tive. Eu evolui até ao ponto em que estou, por isso também acredito que qualquer evolução dos mais novos será sempre para muito melhor, para algo mais equilibrado, para um mundo onde possam partilhar a vida com animais. É super importante para as crianças, por exemplo. O cuidar, o dar e receber… O melhor de nós é retirado com esta noção do cuidar e, se isso for alimentado desde muito cedo, acredito que estamos a ajudar a formar adultos melhores.

O abandono de animais é uma preocupação da Clara.
Sem dúvida. E enquanto eu cá andar, irei continuar a cumprir a minha parte. Quero sempre tirar cães e gatos de canis e dar-lhes uma casa. Dois dos meus gatos vieram de casas onde nasceram. Os meus dois cães também vieram do canil. Curiosamente, o Kiko é um Labrador puro e veio do canil… Com tanto animal aí, faz-me um bocadinho de confusão… eu não critico e muitas vezes penso que gostava tanto de ter um Border Collie, mas sou incapaz de dar dinheiro para comprar um cão. Se podemos ir buscar e deixar que eles nos escolham…

Como é que os seus a escolheram?
Conto-lhe a história do meu Nero, por exemplo, um dos meus gatos. Ele escolheu o meu filho, que tinha perdido um gato há pouco tempo e eu achei que ele tinha de ter outro. O Nero estava escolhido para outra pessoa, mas agarrou-se ao meu filho de uma maneira tal que as senhoras da associação onde o fomos buscar disseram logo que ele ia connosco, que ele nos tinha escolhido. A Mia, no conjunto de cinco cachorros todos malucos, foi a primeira a vir ter comigo. Tinha dois meses. O que agora é mais doloroso é que eu vejo o meu Kiko a envelhecer, a ficar com problemas nas articulações, e percebo que o fim dele está próximo. Mas sei que não podemos pensar no fim, porque se o fizermos não estamos a pensar no caminho. Pelo menos sabemos que, durante o período de vida dos animais vamos ter uma relação válida, uma relação boa. Boa para nós e boa para eles. 

Percorra a galeria para ficar a conhecer os melhores amigos de Clara de Sousa.

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