Família

Crise económica está a aumentar o abandono animal em Portugal

Aumento do custo de vida e endividamento estão a causar mossa às famílias. E há cada vez mais animais a pagarem por isso.
Tristeza que dói.

A crise parece ter vindo para ficar. Os preços estão todos a subir e os bancos centrais têm tido dificuldades em domar a inflação, mesmo com repetidas subidas das taxas de juro – o que também se reflete num aumento das prestações dos empréstimos, com o crédito à habitação no topo das preocupações de muitos portugueses.

Há quem tenha de apertar mais o cinto e até prescindir de bens não essenciais, mas há também outras vítimas desta crise que não têm voz nem escolha: os animais de companhia.

O mal é generalizado. Em muitos outros países, como os EUA e o Reino Unido, por exemplo, há animais a serem deixados para trás em nome da crise. Mas é mesmo a crise a verdadeira responsável? Se um animal for visto como um membro da família, os seus tutores tudo farão para o manterem no lar – e até poderão ter de o entregar a alguém se as coisas ficarem mesmo feias, mas nunca o abandonarão no meio da rua, vulnerável e sem defesas.

É precisamente essa a opinião de Natália Bento, presidente da Associação para Proteção dos Animais de Rua (APAR) de Moncarapacho/Fuzeta, que aponta a ausência de chip para a falta de responsabilização de quem abandona.

“Já estamos a sentir a crise e ainda vai piorar mais”, lamenta Natália em declarações à PiT. “Nos últimos dois anos, com a covid, as pessoas adotaram mais. Agora, muitas estão a ficar desempregadas e sem casa e abandonam os animais. Falo de cães que aparecem na rua gordinhos, bem tratados, com coleira e tudo”.

Animais sem chip, donos impunes

Apesar de o microchip ser obrigatório, ainda há muitos donos que não identificam os seus animais e que saem, por isso, impunes. “Como a nossa lei não funciona na questão do chip, pois as autoridades não fiscalizam, é fácil abandonar. Sem chip, como se responsabiliza alguém?”, questiona a presidente da APAR.

“No último mês entraram 20 cães e pelo menos 15 tinham de certeza dono. São muito educados. Uma cadelinha que fui buscar à rua em Olhão até se senta e dá a pata”, diz Natália Bento.

E, na maioria, são cães grandes, explica. “Como comem muito e as despesas veterinárias são altas, são abandonados. Isto está muito mau, infelizmente. Não tendo chip, não há provas de quem são os animais”.

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A tristeza de um animal que perde tudo.

Neste momento, afirma Natália, “estamos com 150 animais – e hoje entrou mais um. Não podemos deixá-los, temos de os acolher. O pior é que vamos ficando lotados. Mas vamos fazendo o que podemos e todos juntos vamos conseguindo. O importante é não desistir e olhar em frente”, remata a presidente da APAR, que tem à venda calendários solidários com os Bombeiros de Olhão para fazer face às despesas.

O abandono não se faz sentir apenas a sul. Ângela Assis, presidente da Associação para a Protecção de Animais de Torres Vedras (APA Torres Vedras), confirma à PiT a mesma tendência na zona onde atuam. “Com efeito, estamos a notar, nos últimos meses, um enorme aumento de abandonos e também pedidos de ajuda – através de email e por outras vias”, aponta.

Mais de 630 casos de abandono reportados pela GNR e PSP

A ausência de microchip não ajuda quando chega a hora de pedir responsabilidades, mas até animais com microchip estão a ser abandonados – e, quando confrontados, os donos tentam fugir às responsabilidades, sublinhava recentemente o “Jornal de Notícias”, salientando que as denúncias recebidas desde o início do ano pela GNR e pela PSP já superam os números totais de 2021.

Segundo dados cedidos ao mesmo jornal pela GNR, até ao final de setembro foram reportados 385 casos de abandono, contra 358 em todo o ano de 2021, sendo que na maior parte dos casos são cães. Já a PSP contabilizava 252 denúncias de abandono até novembro, contra 237 no total do ano 2021. No total, são 637 casos.

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Há colónias a ficarem descontroladas.

A Provedora do Animal, Laurentina Pedroso, não se surpreendeu com estes números. “São apenas a ponta do icebergue”, afirmou, em declarações ao “Público”. “Os animais abandonados são aos milhares, não são às centenas. Portanto, o que estamos a dizer é que as autoridades policiais reportam a mesma tendência que as associações e os centros de recolha estão a observar”, disse.

“Estes dados são importantes porque nos confirmam uma tendência, mas os números são muito baixos face àquilo que sabemos que é o panorama nacional”, acrescentou ainda Laurentina Pedroso.

Numa reportagem da SIC no início deste mês, a tendência é reiterada: há cada vez mais cães e gatos abandonados pelos donos – e a inflação é apontada como a principal causa. E já nem os animais de raça escapam.

Mafalda Ensina, responsável da Associação Amigos dos Animais de Campo Maior, diz à PiT que a sua zona não foge à regra. “Notamos muito abandono com a desculpa da crise, da guerra, dos aumentos de preços, etc”. Mas, na sua opinião, estas situações são apenas pretextos. “É muito bla, bla, bla. Mas a verdade é que ainda há adoções muito irresponsáveis e ponto”.

Tendência da crise ainda não chegou às ilhas

Ao contrário de Portugal Continental, nas ilhas a tendência parece mais atenuada – pelo menos por enquanto. Não quer isto dizer que não haja abandonos. Muito pelo contrário. Mas não estão a ser atribuídos à crise económica.

Sara Machado, presidente da AMAIS – Associação Madeira Animais, diz isso mesmo. “Relativamente aos abandonos, ainda não conseguimos notar diferença, porque infelizmente são sempre muitos”, sublinha à PiT.

É também essa a leitura de Lucília Pereira, que está na direção da assembleia da Associação Cantinho dos Animais dos Açores. “Na nossa opinião, não houve acréscimo de abandonos devido à crise propriamente dita, e sim porque tem vindo a ser ‘normal’ todos os anos um aumento do abandono de animais”, frisa à PiT. “Como as pessoas, na sua maioria, não castram, nota-se que de ano para ano há mais animais. Havendo mais animais, há mais abandonos e mais maus-tratos”, aponta.

O certo é que, no ano passado, foram recolhidos 43.603 animais pelos municípios portugueses do continente e ilhas, segundo o relatório anual de atividades dos Centros de Recolha Oficial (CRO) divulgado em julho passado pelo Instituto da Conservação da Natureza e Florestas (ICNF). E, a julgar pelos números que têm vindo a ser apresentados, o ano de 2022 pode vir a ser pior.

Percorra a galeria para saber mais sobre os procedimentos a ter com o registo do seu animal de companhia, que é obrigatório – e olhe que a coima pela falta de chip pode chegar aos 45 mil euros.

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