Família

Dióspiro sempre viveu acorrentado a um forno. Está na hora de saber o que é liberdade

A dona achava que era uma gata e não queria que andasse à solta, para não engravidar. Além disso, administrava-lhe a pilula.
Ainda é um pouco reativo, mas já está a aprender a amar.

Nunca conheceu uma sala, um quarto ou amor. Mas, se lhe perguntassem o que é uma cozinha, ele consegue imaginar na perfeição um frigorífico, um microondas e, especialmente um forno. Foi com este cenário que Dióspiro sempre se deparou. Agora, só deseja que lhe deem asas para voar para o carinho de uma verdadeira casa.

O gato foi adotado com três meses, para fazer companhia a uma senhora idosa, que vivia sozinha. No entanto, raramente serviu esse propósito: “A senhora não queria que ele fugisse. Achava que era uma gata e tinha medo que engravidasse. Então, prendeu-o à aba do forno com uma corda”, começa por contar à PiT Joana Costa, 24 anos, voluntária da associação ResGato, sediada em Oliveira de Azeméis, em Aveiro.

Dióspiro, ou Toranja, como a associação o chamava, visto que a dona nem lhe tinha dado um nome, aprendeu a viver com a solidão e com o pouco espaço que tinha para si, tendo as taças de comida e a caixa de areia apenas a centímetros de distância. A única atenção que tinha era dos filhos da tutora e das funcionárias do centro de dia, que iam lá de quando em vez cuidar dela.

Durante quatro anos, viveu acorrentado a um forno. Até que a saúde da sua dona lhe deu a liberdade que sempre procurou: “A senhora acabou por ficar acamada, e as cuidadoras ligaram-nos a pedir ajuda, porque ela ia para um lar”.

Era este o lar de Dióspiro.

Joana e as voluntárias da ResGato foram buscar o gatinho. Ou melhor, o gatão: “Ele pesava cerca de sete quilos. O que é normal, pois comia e não se mexia os dias inteiros. Estava extremamente obeso”, lamenta.

Havia outra razão para o obesidade mórbida, que as voluntárias só vieram a conhecer após os exames médicos: “Quando o levámos à clínica, ainda achávamos que era uma gata. Não só descobrimos que era um gato, como que sempre tinha tomado a pílula”.

A voluntária começa por condenar o uso da pílula em fêmeas, devido “ao risco de provocar um tumor mamário”, mas enuncia que em machos só piora a situação. “O Dióspiro tinha os valores hormonais totalmente alterados”, garante. Na clínica, conseguiram diminuir-lhe o peso e os valores, para o deixarem pronto para um futuro melhor.

O gato começou por ir para uma Família de Acolhimento Temporário (FAT), de forma a habituar-se à presença de pessoas e “para curar os seus traumas”. Assim que a associação verificou uma melhoria fora do comum, foi levado para o seu abrigo.

“Quando começou a ter confiança em nós e já vinha ter connosco, fomos introduzindo-o com outros animais. É muito sociável com gatos”. A voluntária alerta que Dióspiro ainda é um pouco reativo, sendo que é precisa muita “calma, para que ele se habitue às pessoas”.

Há, contudo, uma zona ainda intocável para Dióspiro: “Ele não deixa que ninguém se aproxime do seu lombo. Como ele esteve acorrentado durante tanto tempo, nunca se conseguiu lavar nessa área. Então, ganhou muitos nós no pêlo, e acabou por ficar mais sensível aí”, explica.

Fora isso, é um gato muito meigo e que está a aprender, aos poucos, a gostar de carinho. Carinho esse que só pode ser dado com festinhas, e não com comida: “Ele precisa de diminuir o peso ou mantê-lo. Não pode voltar ao que era antes”.

Dióspiro está na PiTmatch, a nova plataforma de adoção responsável da PiT, à procura de uma família que lhe possa dar tempo para se adaptar. Tem um coração do tamanho do mundo, e que não cabe nas paredes de uma cozinha. Muito menos nas de um forno.

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