Quando “Rain Man – Encontro de Irmãos” estreou em 1989, o mundo ficou a saber o que significava a palavra “autista“. Raymond Babbitt, interpretado por Dustin Hoffman era o irmão desconhecido de Charlie (Tom Cruise) que ficou com a herança toda a da família quando o pai morreu. Raymond era um autista institucionalizado por “representar um perigo para o irmão”. Charlie vai buscá-lo e leva-o numa viagem que se revela inesperada para ambos. Os talentos de Raymond surpreendem Charlie, que não entende as dificuldades que este tem em relacionar-se. No entanto, aos poucos conseguem entender-se.
Antes de “Rain Man”, poucos sabiam o que significava ser autista. Nessa altura, era algo abstrato, apenas compreendida por pais com filhos que sofriam da perturbação, ou clínicos especializados. No filme, vencedor de vários Óscares, esta ignorância generalizada é exemplificada no momento em que Charlie Babbitt tenta consultar um psiquiatra sobre Raymond. Uma enfermeira pergunta-lhe: “Ele é artístico?” Charlie responde: “Não, ele é autista”. A enfermeira diz: “Não estou familiarizada com isso, qual é a natureza exata do problema?”
A Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) caracteriza-se por dificuldades na comunicação e interação social, associadas a comportamentos repetitivos e/ou interesses marcados por objetos, ou temas específicos. A designação de espectro foi atribuída pela variabilidade dos sintomas, desde as formas mais leves até às formas mais graves, uma realidade vista mais recentemente na série “The Good Doctor”. Shaun Murphy (Freddie Highmore) tem autismo, e embora sem filtros e com uma notória dificuldade em estabelecer relações, consegue transformar-se num cirurgião de sucesso.
“Mais do que um conjunto fixo de características, esta perturbação parece manifestar-se mediante uma variedade de combinações possíveis de sintomas, num contínuo de gravidade de maior ou menor intensidade.” Embora haja um conjunto de sinais característicos, que permitem realizar um diagnóstico clínico, não existem duas pessoas afetadas da mesma forma.
Em Portugal, estima-se que a Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) afete cerca de 60 mil pessoas, segundo os dados disponibilizados pela Associação de Apoio e Inclusão ao Autista. Em todo o mundo, é um fenómeno que atinge cerca de 15 por cento da população de forma direta e cerca de 30 por cento de forma indireta, considerando os familiares dos cuidadores. Ainda assim, são poucas as terapias especialmente dirigidas às suas necessidades. É precisamente essa lacuna que o Autismo EPE procura colmatar.
O projeto foi criado em 2001, numa altura em que se falava ainda menos sobre a doença. E nos últimos 20 anos, com uma maior experiência e mais conhecimento, tentam ser um complemento terapêutica para os miúdos (e familiares) que estejam no espectro do autismo, “como uma intervenção de longa duração que visa benefícios ao nível da relação, da comunicação e do comportamento”.
O uso de cavalos no autismo
“A ideia surgiu de uma partilha com o professor Emídio Salgueiro, quando ainda concluía o curso de Psicologia, após ler sobre umas terapias que faziam na Alemanha, desde os anos 80 que usavam cavalos em psicoterapia”, começa por explicar o psicoterapeuta Leopoldo Leitão. Enquanto cavaleiro que saltava por obstáculos e tendo em conta formação enquanto psicólogo clínico, surgiu a ideia então de perceber quais os efeitos reais da terapêutica.
Ao início os objetivos eram apenas ao nível da investigação científica. No entanto, com os resultados obtidos e o envolvimento na área perceberam que queriam continuar a explorar e ajudar cada vez mais miúdos com esta doença.
“O autismo era uma área que considerava com especificidades e dificuldades em tratar e consultório”, diz Leopoldo Leitão. Por isso, ao fazê-lo no picadeiro, com cavalos, ajudava não só no desenvolvimento da criança, como no trabalho com o terapeuta. “Dá outro tipo de possibilidades”, acrescenta. E não se fica pela terapia com o paciente. “O trabalho é feito também com a família, porque acho fundamental na área da infância e que facilita, sobretudo, no autismo.”
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A terapia com animais, nomeadamente com cavalos, ajuda quem sofre da patologia e “aprender a lidar com o lado emocional, a criar um vínculo afetivo e ainda ajuda na socialização e interação”. No entanto, não é para todos. Antes de começar qualquer terapia, é necessário avaliar o à vontade dos miúdos com animais e em que patamar do espectro é que estão.
Neste tipo de intervenção, o cavalo atua como um agente promotor de ganhos tanto no nível físico quanto no psíquico. Além disso, como se trata de uma atividade que envolve a participação de todo corpo, ajuda também noutras áreas. “Os miúdos acabam por ganhar uma maior consciencialização do corpo e aperfeiçoam a coordenação motora e do equilíbrio”, embora não sejam estes os objetivos iniciais da terapia.
As sessões acontecem nas instalações da Sociedade Hípica Portuguesa, no Campo Grande, em Lisboa e são pensadas para os miúdos estarem em cima do cavalo entre 20 e 30 minutos. O restante do tempo até perfazer uma hora é dedicado à aproximação do paciente ao cavalo e de interação com o animal. Há ainda espaço para mais momentos lúdicos, seja a pintar ou a brincar, para estimular a criatividade, com atividades adaptadas à idade.
“Dada a especificidade e complexidade da doença é necessário que a terapia seja de média-longa duração e com sessões regulares, para que se consigam ver resultados”
Na Autismo EPE, trabalham, normalmente, com jovens até aos 18 anos, “mas não estabelecemos um limite”. “A inscrição começa com um contacto direto com a instituição e depois é marcada uma entrevista aos pais, onde conversam sobre os objetivos e podemos ver as avaliações já feitas à criança.” Se fizer sentido, os pacientes começam a ter sessões, geralmente semanais, e ao fim de semana. A inscrição tem o custo de 40€ e a mensalidade é de 125€.
Carregue na galeria para ver algumas fotografias dos animais.









