Família

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Faísca esperou oito anos num canil — mas conseguiu um lar antes de morrer

Foi adotado em agosto. Durante cinco meses soube o que era ser amado numa família só dele. Deixa saudades e muitas lágrimas.

Há animais que passam toda a vida em abrigos de associações da causa animal ou em canis municipais, à espera da sua hora de sorte. Muitos veem, ao longo dos anos, os seus companheiros de box a saírem felizes, pela trela, com uma nova família, e anseiam para que um dia seja a vez deles. Para Faísca, esse dia chegou em agosto passado, depois de oito anos atrás das grades do canil de Tarouca. Já não foi por muito tempo que soube o que era um lar de amor, mas durante cinco meses foi o cão mais feliz do mundo – o que comprova a importância de se adotar um animal sénior. Para ele, cada afago valeu pela vida inteira.

Foi em finais de julho que uma voluntária da Associação de Amigos dos Animais de Tarouca que costuma ir passear e mimar os cães do canil municipal contou a história à PiT. “Ele terá nascido em 2015 e a 13 de maio de 2017 deu entrada no canil municipal de Tarouca. Está há oito anos preso”, lamentava então a protetora.

A prisão acabaria pouco depois. O olhar meigo de Faísca chegou à pessoa certa. O coração de Manuela transbordou de amor quando o viu. Dali à sua adoção foi um passo. Entre os dois… foi amor à primeira vista – e a 12 de agosto era a vez de Faísca sair do canil, pela trela, com uma família.

A sorte grande de Faísca

“O ‘nosso’ Faísca esperou oito anos. Mas saiu-lhe a sorte grande. Conquistou uma super família”, anunciou a associação em novembro, quando já não havia dúvidas de que o querido patudo tinha conquistado um lar definitivo – e dos bons. Nessa altura, a associação de Tarouca, no distrito de Viseu, partilhou uma das mensagens da sua tutora: “Dois meses se passaram (12/08/2025) desde que saí de Tarouca, rumo ao Porto. Não sabia o que me esperava. Vinha muito nervoso e agitado. Aqui conheci a minha mãe do coração, o meu mano Caju e a minha mana Mel. Os meus manos gostam muito de mim, estão sempre a lamber as minhas orelhas. A mãe também gosta muito de mim, dá-me muitos beijinhos. O meu medo das pessoas e dos ruídos continua mas com o passar do tempo irei habituar-me a esta nova vida”.

A mensagem prosseguia: “A todos vós, nunca vos esquecerei. Foram as pessoas que me acolheram, que me deram de comer e beber, que me deram um teto. Graças aos cuidados de todos vós ao longo dos anos, foi-me possível chegar a esta idade com vida. Um beijo enorme e um xi para todos. Faísca”.

Faísca
Quando ainda esperava, no canil.

As notícias não poderiam ser melhores. Para estas voluntárias e para todos os que no canil tentam minorar a tristeza dos dias para estes animais, cada nova adoção é motivo de grande alegria – e ainda mais quando se trata de um sénior.

Quis a vida que Faísca não ficasse por cá durante muito mais tempo, para grande tristeza de todos. Após cinco meses de amor num lar só dele, o meigo cão partiu – mas não no canil, mas não sozinho. Partiu junto de quem tanto o amava e que agora chora a sua perda. “A senhora está a sofrer muito. Também sofremos por ela”, conta-nos a mesma voluntária, com tristeza.

“Cinco meses que fizeram toda a diferença”

Na semana passada, a associação deu a notícia na sua página, deixando igualmente pesarosos todos aqueles que acompanharam o percurso e a adoção deste amigo de quatro patas. “Hoje escrevemos com o coração muito apertado. O nosso querido Faísca partiu. Partiu cedo demais, é verdade. Foram apenas cinco meses de liberdade, de conforto, de cama quentinha, de rotina tranquila, de carinho permanente. Cinco meses que nunca apagarão os oito longos anos de espera, mas que fizeram toda a diferença na vida dele. O Faísca conheceu finalmente o que sempre mereceu: ser escolhido, amar e ser amado”.

Diz a publicação que Faísca “conheceu um lar, um colo, uma casa cheia de amor. Conheceu a doçura imensa da sua querida tutora, D. Manuela, a sua humana, que o viu e o chamou ‘filho do coração’ antes mesmo de o conhecer. E que lhe deu tudo – absolutamente tudo! – até ao último dia. Foi incansável e somos-lhe eternamente gratas. A dor da D. Manuela é imensa e sentimos cada pedacinho dela com o coração apertado”.

“Nós, associação, voluntários e canil, choramos não só a perda, mas também a gratidão. Gratidão por todos os que acreditaram que o Faísca não era invisível. Gratidão por cada passeio, cada fotografia, cada apelo partilhado, cada esperança renovada e pela boleia, que lhe devolveu a liberdade levando-o até ao seu verdadeiro lar. O Faísca não morreu no canil. Morreu muito amado. E isso, muda tudo. Corre livre, querido Faísca.  Agora, sem espera, sem medo, sem despedidas… e leva contigo a certeza de que foste profundamente amado. Nós prometemos continuar – por ti e por tantos outros que ainda esperam. Obrigada, Faísca”, remata o post da associação de Tarouca.

Para Faísca, há cinco meses que a hora de dormir tinha deixado de ser triste. No canil, a noite trazia apenas o ladrar de outros cães como companhia, mas em casa de Manuela, naquela que passou a ser também a sua casa, a noite trazia mimo e bons sonhos. Agora dia adormeceu para sempre – mas o sonho, esse, continuou a ser bom.

Percorra a galeria para ver algumas fotos de Faísca – e abra o seu coração a um animal de mais idade que espera, ainda com esperança, numa box de um canil ou abrigo, pela oportunidade de ser feliz.

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