Família

Gato-bebé cai em esgoto no Barreiro. Demorou 24 horas mas foi salvo

Foi uma ajuda em massa de associações, bombeiros, PSP, protetores, empresas, um vereador, um veterinário e muitos mais.
Resgate em curso.

“Vale sempre a pena lutar pelo que se acredita. Nunca aceitem que não há nada a fazer. Nunca aceitem um não. Lutem sempre. Unam esforços. Nunca desistam. Eis o Salvador”. Foi assim que Suzel Costa, presidente da Associação 1.618 – Dignidade Animal, deu ontem a feliz notícia do resgate de um gato bebé, agora batizado de Salvador, que estava preso há mais de 24 horas numa conduta no Barreiro – distrito de Setúbal.

Assim que a associação soube que o gato de três semanas ali tinha caído, tentou de imediato chegar à fala com o proprietário, já que seria necessário partir uma parede. Mas este recusou. E foi então que o martírio se agudizou, perante a impossibilidade de avançar, ao mesmo tempo que se ouvia os miados aflitos do bebé. Nessa altura, a 1.618 decidiu contar o que se estava a passar.

Com o título “Crónica de uma morte anunciada por omissão de auxílio”, a associação explicou tudo. Eram 19h de segunda-feira 15 de abril. “Recebemos a informação, às 16h, de que teria caído um gato bebé numa conduta de 14 metros, no Barreiro, junto ao Lidl. Acionámos os Bombeiros Voluntários do Sul e Sueste do Barreiro, que prontamente se dirigiram ao local. Dado que a extremidade do tubo está em propriedade privada, ligaram para a PSP – que, perante a recusa do proprietário em dar autorização para partir a parede e aceder ao gatinho bebê, baixaram os braços e condenaram à morte uma vida que ainda está a começar”, dizia o primeiro post de Suzel Costa publicado no Facebook.

Não aprendemos nada com Santo Tirso [incêndio em 2020 que provocou a morte de mais de 70 animais de dois abrigos ilegais] e o direito da propriedade privada versus o crime de omissão de auxílio. O artigo 200.º do Código penal é explícito no que respeita à omissão de auxílio a pessoas em risco de vida e, no caso dos animais, vamos continuar a ouvir os miados aflitivos até que a morte chegue? Que barbárie é esta? Ajudem por favor”, apelava a presidente da 1.618.

Rapidamente mais protetores particulares, associações e outros amantes dos animais se apressaram a tentar ajudar. Durante 24 horas, foram muitos os que deram o seu contributo para tentar ajudar a resolver este caso, que terminou com um final feliz. “Foi uma maravilhosa união de esforços no resgate do Salvador, que caiu de uma altura de 14 metros num cano de escoamento de águas pluviais e que foi resgatado numa rampa de recolha das águas”, contou à PiT a presidente da associação 1.618, cansada mas de coração cheio. “Agora vou deitar-me um pouco, porque há 24 horas que não durmo”, disse Suzel Costa, com um sorriso de missão cumprida com final feliz.

Dezenas uniram-se para ajudar no Barreiro

Durante todo o processo, desde a denúncia pública, foram dezenas as pessoas que se juntaram para salvar esta vida. Já na madrugada de terça-feira, uma nova publicação dava conta disso mesmo: “Muito obrigada a quem nos está a ajudar no terreno e no telefone. Tivemos a ajuda de um canalizador (584€), vários elementos do IRA, três agentes da PSP e o Luís (da associação Abrigo da Mãozinhas) com uma câmara que desceu 14 m e que não conseguimos localizar o gatinho, embora o miado seja muito audível. Não se consegue saber onde o tubo vai desaguar. De pés e mãos atados por hoje”, dizia o post da 1:39 da manhã, onde se podia ver alguns dos trabalhos da tentativa de resgate, filmados em vídeo.

Na terça-feira, 16 de abril, já perto das 14h, um novo post deixava adivinhar que as coisas estariam a correr bem: “impossível não é um termo que eu conheça. Está quase. Precisamos das vossas preces”. As preces foram atendidas e às 14:22 chegava a boa nova: “conseguimos” – uma publicação que foi recebida com grande alegria e alívio por todos os que acompanharam o caso.

Perto do final da tarde, a associação fez os agradecimentos formais, sendo possível perceber que houve um mar de gente envolvido nestes esforços para salvar o gatinho de apenas três semanas. Numa lista onde a 1.618 se mostra grata a todos os que apoiaram é possível ler vários nomes: “Sara Almeida, que sinalizou o processo e esteve sempre presente; SOS Bicharada, que trabalhou em conjunto connosco; Bombeiros Voluntários do Barreiro – Corpo de Salvação Pública, que responderam ao apelo em três ocasiões distintas: MC Desentupimento de Esgotos e Canalizador Baixa da Banheira, que quando souberam que se tratava do resgate de um animal cobraram apenas a deslocação e foram quem descobriu a localização exata do gatinho; PSP do Barreiro, que garantiu a segurança da operação para todos os envolvidos; e Carlos Guerreiro, vereador da Câmara Municipal do Barreiro, incansável na gestão e agilização do processo”.

Mas não só. A ajudar estiveram também “o piquete das águas da Câmara do Barreiro; o segurança do Centro Comercial Cidade Nova, que foi incansável na sua disponibilidade; o administrador do condomínio do Centro Comercial Cidade Nova, que deu carta branca para fazer o que fosse necessário para salvar o gatinho; Armando Silva, veterinário municipal, que excedeu as suas competências, subindo e descendo escadas, andando de um lado para o outro, espreitando pelos canos, em busca do pequenito; Luís, do Abrigo da Mãozinhas; Inês Sousa Real, do PAN; Alexandra Pereira, do ICNF; Duval Salema; Rita Vairinhos; Cristina Nogueira; e “todos os que, de forma presencial, nas redes sociais, ou de qualquer outra forma nos acompanharam, responderam aos apelos e de alguma forma nos ajudaram”.


A associação, que tem muitas despesas a seu cargo, remata pedindo ajuda para pagar as despesas que teve com a câmara endoscópica e que ascenderam a 584€. Quem puder dar o seu contributo, pode encontrar no final do post as várias formas de o fazer.

IRA também participou no primeiro dia da operação

Também o grupo Intervenção e Resgate Animal (IRA) fez uma publicação a dar conta de como tinha sabido da situação e do desfecho feliz anunciado pela 1.618. “Ontem, pelas 22h, recebemos uma denúncia para um gato bebé caído num tubo de escoamento de águas pluviais pertencente a um centro comercial no Barreiro. Devido à complexidade do resgate, foi mobilizada a ambulância animal com a tripulação dos @bvcamarate e dois operacionais do IRA”.

“O tubo de escoamento tinha uma profundidade de seis metros, com respetivas derivações e curvaturas no percurso, tendo um comprimento indefinido. Foi solicitada a presença de um canalizador dotado de uma câmara endoscópica, tendo sido percorridos mais de 14 metros de tubo sem localizarmos o animal, revelando-se impossível continuar com o equipamento devido aos obstáculos no percurso. Esta operação terminou às 2h, com a presença também dos agentes da PSP do Barreiro, sem localizarmos o animal”, explicou o IRA, adiantando que, na manhã de terça-feira, vigilantes do centro comercial iriam inspecionar as caixas de derivação para procederem à eventual localização do animal, “estando os nossos elementos a aguardar luz verde para dar continuidade ao resgate deste animal”. E, no final, o melhor cenário, já com a atualização: “O gato já foi salvo. Obrigado a todos os intervenientes que estiveram hoje no seu resgate”.

Agora, Salvador está a ter todos os cuidados necessários e, atendendo a que apaixonou meio país, não deverá ser difícil encontrar uma boa família que o faça esquecer-se do mau bocado que passou com tão tenra idade. Percorra a galeria para ver algumas fotos das operações de busca e resgate.

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