Família

Gruta: o restaurante do Porto onde a corvina combina com o açaí recebe pets

Escondido na Baixa, o espaço recebe animais na esplanada coberta e climatizada.

Quem passa apressado pela Rua de Santa Catarina dificilmente imagina que, por trás de um portão de ferro discreto, existe um pequeno refúgio iluminado a néon. A palavra “Gruta” brilha sobre o corredor estreito, ladeado por plantas, luzes penduradas e mesas alinhadas. À medida que se desce a rampa, o barulho da rua desaparece e ficamos com a sensação de estar a entrar numa caverna luminosa no meio da Baixa do Porto. É aqui que está instalado o restaurante Gruta, aberto desde 2021, e hoje com um novo capítulo: uma carta renovada por uma chef que quer pôr Portugal a descobrir outros sabores do Brasil.

Caroline Giandalia, 29 anos, nasceu no Rio de Janeiro e começou na pastelaria, num negócio familiar de bolos com a mãe e a irmã. Licenciou-se em gastronomia, passou por cozinhas profissionais no Brasil e, há cerca de seis anos, mudou-se para Portugal. Trabalhou com nomes como José Avillez e Ricardo Costa e passou por espaços como o Yeatman Gastronomic e o Ovo, onde foi consolidando o seu estilo. Na Gruta entrou primeiro como parte da equipa de cozinha; há um ano e meio assumiu a chefia e, com ela, a vontade de criar uma cozinha de autor que cruza as duas margens do Atlântico.

O restaurante, fundado em 2021, sempre teve uma forte ligação à gastronomia brasileira, mas esta nova fase do restaurante Gruta aprofunda essa relação. A sala principal mistura madeira, cerâmica, ilustrações de autor e plantas verdes, criando um ambiente intimista e acolhedor. No terraço climatizado, que funciona como prolongamento da sala, é possível jantar ao ar livre sem sofrer com o frio ou a chuva, e fazê-lo ao lado dos patudos, que são bem-vindos no espaço. Ao todo, há cerca de 40 lugares e o serviço é só ao jantar, todos os dias, entre as 18 e as 23 horas — convém reservar.

Na cozinha, Caroline comanda uma equipa composta apenas por mulheres. É um detalhe que, garante, influencia o ambiente e a própria cozinha: mais delicada, atenta aos pormenores e às texturas, mas sem perder força de sabor. A chef gosta de partir sempre do produto. Trabalha sobretudo peixe e marisco da costa portuguesa, aos quais junta ingredientes brasileiros como mandioca, tucupi, cupuaçu, açaí ou banana-da-terra. Não se trata de “portugalizar” receitas do Brasil ou de fazer versões tropicais de pratos portugueses; a ideia é criar combinações novas a partir dos ingredientes, combatendo o desperdício e explorando todas as suas possibilidades.

“O nosso processo criativo começa sempre no produto. Não partimos de receitas portuguesas ou brasileiras para reinventar — partimos do zero. Estudamos o ingrediente, percebemos como se comporta, e só depois construímos o prato à volta dele.”

A experiência no restaurante Gruta começa logo no couvert, pensado como um primeiro mergulho no universo da casa: azeite picante, manteiga fermentada com algas, focaccia caseira e biscoito de polvilho chegam à mesa ainda antes das entradas. Para acompanhar, muitos clientes escolhem um copo de Vértice, espumante do Douro conhecido pela complexidade e pelas bolhas finas, que faz boa ponte com o que vem a seguir.

Nas entradas, a carta mostra bem o lado criativo da chef. Há um crudo de corvina selvagem curada, com molho de dashi e citrinos, kumquat, pickles de jalapeños e ovas de truta (12€), que equilibra frescura, acidez e um ligeiro toque fumado. Uma das sugestões mais marcantes é a vieira com caramelo de tucupi e texturas de tangerina (18€). Aqui, o mar da vieira encontra a terra da mandioca — o tucupi é um subproduto da raiz, fermentado e muito ácido — num prato que pode ter até seis elementos vindos da mesma planta, entre crocâncias e molhos. Outra entrada muito pedida são as gambas selvagens salteadas em alho, servidas com molho de castanha de caju fermentada, óleo de malagueta e folhas que mudam consoante a estação (16€).

Nos principais, o restaurante Gruta continua a jogar entre conforto e surpresa. O arroz de carabineiro algarvio chega carregado de sabor, graças a um molho feito a partir das cabeças, e é equilibrado por um aioli de lima e coentros (38€), que traz frescura a cada garfada. Já a corvina selvagem com puré de castanhas, molho de açaí, beurre blanc e chips de castanha (30€) é talvez o prato que melhor explica a filosofia da casa: juntar dois ingredientes simbólicos, a castanha e o açaí, num registo outonal, com notas doces e ácidas pouco habituais num prato de peixe em Portugal, mas comuns no Norte do Brasil. A acompanhar, a equipa sugere muitas vezes o Insula, vinho branco dos Açores, da ilha do Pico, mineral e leve, com produção limitada a 2500 garrafas.

“Muita gente acha que juntar açaí com peixe é improvável, mas no Norte do Brasil isso é tradição. Aqui quisemos trazer essa identidade de forma elegante, equilibrando sabores para que o público português também se identificasse.”

Quem prefere algo mais vegetal tem opções como a moqueca de banana-da-terra grelhada, com arroz basmati e farofa de dendê (20€), ou o cogumelo eryngi na brasa com molho de tamarindo, cogumelos silvestres salteados, puré de couve-flor, salada de funcho e molho de cogumelos (26€). Neles todos, percebe-se a preocupação da chef em trabalhar diferentes texturas — um molho sedoso, uma crosta crocante, uma flor com sabor real e não apenas decorativo — e em dar protagonismo aos ingredientes de época, em diálogo constante com os produtores.

As sobremesas mantêm o ADN brasileiro de Caroline Giandalia, com um pé bem assente no Porto. Há pavlova com gelado de wasabi, gel e mousse de cerejas (10€) ou mousse de chocolate com bolo de chocolate amargo, ganache de chocolate branco caramelizado e gelado de cupuaçu (12€). Um dos doces que mais curiosidade desperta é o bolo de mandioca com cocada morena, queijo coalho grelhado com mel e pipoca de tapioca (10€). A inspiração vem dos snacks das praias do Rio de Janeiro, onde o queijo coalho grelhado, salgado e fumado, contrasta com o doce — na Gruta, a sobremesa ganha outra dimensão quando harmonizada com um cálice de vinho do Porto branco seco envelhecido, como o Churchill’s Dry White 10 anos.

A carta de vinhos do restaurante Gruta é curta, mas focada, com referências das regiões dos Vinhos Verdes, Douro, Bairrada, Dão, Açores e alguns espumantes, além de portos pensados para o fim da refeição. O serviço de sala, completamente feminino, tal como a cozinha, é atento e descontraído: explica cada prato, conta a história dos ingredientes brasileiros menos conhecidos e ajuda a escolher o melhor pairing, sem formalismos em excesso.

Talvez seja por isso que o Gruta se tornou parada obrigatória para muitos portugueses, turistas habituais e até artistas brasileiros que passam pelo Coliseu do Porto, ali ao lado. Há quem marque mesa sempre que volta à cidade, quem escolha o restaurante para celebrar aniversários e até pedidos de casamento — alguns aconteceram no mesmo dia. Entre luzes de néon, plantas e pratos que ligam Rio de Janeiro e Porto, este restaurante continua a ser um pequeno segredo bem guardado na Baixa. E este novo menu mostra que o restaurante Gruta está pronto para continuar a surpreender.

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