Família

Família

Gymdogs: a nova moda nos ginásios em Portugal é comer snacks para cães

A tendência passou dos sacos de ração para os petiscos caninos. Mesmo assim, continua a haver vários riscos para a saúde.

Nos últimos anos, uma das tendências mais inusitadas a emergir nas redes sociais ligadas ao universo fit tem sido a ingestão de ração para cães, com a promessa ganhar massa muscular no ginásio. O fenómeno, que começou como uma espécie de desafio humorístico no TikTok, rapidamente se transformou numa curiosidade seguida por milhares de pessoas em todo o mundo.

Tudo começou em 2023, quando um criador de conteúdos partilhou nas redes sociais um vídeo em que afirmava que alimentos para cães, como a ração seca, tinham um teor proteico elevado e sugeria que esse conteúdo proteico poderia ser útil para quem procura maximizar os resultados dos treinos de força. Os reels com a alegada contagem de proteínas chegaram a somar milhões de visualizações.

No início deste ano, tornou-se igualmente popular outra publicação no X (antigo Twitter), mas, desta vez, com um twist: os gymrats já não estão a apostar na ração, mas sim nos snacks que normalmente damos aos cães. A tendência já invadiu os ginásios portugueses, sobretudo entre os bodybuilders.

Os alertas já foram dados inúmeras vezes. Afinal, a comida para cão é produzida para satisfazer as necessidades fisiológicas dos animais, cujos sistemas digestivos e prioridades nutricionais são diferentes dos humanos. Contêm aditivos próprios e níveis desproporcionados de macronutrientes que não são adequados para dietas humanas.

Segundo o médico António Hipólito de Aguiar, esta procura também se tornou popular graças ao facto de os snacks para cães serem um produto mais económico do que aqueles que normalmente compramos para repor os níveis de proteína.

Apesar de estes alimentos terem, de facto, maiores níveis desta substância — há pequenos biscoitos que têm 20 gramas —, isso não significa que sejam apropriados para o consumo humano, nem que tragam vantagens adicionais na construção de músculo no contexto de treinos intensivos.

Muito pelo contrário: quem os come está mais sujeito a ter complicações de saúde do que melhorias no bem-estar físico. “Não seguem normas de higiene alimentar humana e, devido a isso, têm muitas vezes maior grau de contaminação de bactérias”, explica o especialista em medicina de longevidade e professor de ciências farmacêuticas na Universidade Católica de Lisboa.

 

Além disso, estes snacks não têm o equilíbrio nutricional de que necessitamos. Os pratos para seres humanos adultos devem conter sempre 25 por cento de hidratos de carbono e 25 por cento de proteína. Os snacks para os cães ultrapassam este limite. “Também têm aditivos próprios que podem ter malefícios para os humanos, especialmente porque temos mais sensibilidade gastrointestinal”, realça António Hipólito de Aguiar.

O excesso de proteína na dieta humana não pode ser desprezado. Como se trata de um elemento mais difícil de processar no corpo, vai sempre aumentar a carga de trabalho dos órgãos para a degradar.

De acordo com as normas europeias, o consumo deste nutriente deve situar-se nas 50 gramas por dia para o adulto comum. Já a Organização Mundial de Saúde faz um cálculo entre a quantidade que pode ser ingerida e o peso da pessoa: 0,75 gramas por quilo. Por outras palavras, se uma pessoa de 50 quilos pode comer 37,5 gramas de proteína diárias, uma pessoa que pese 80 quilos pode aumentar a dose para 60 gramas.

Segundo alguns estudos médicos, esta proporção pode subir para dois gramas de proteína por quilo para quem pratica atividade física intensa (porque o seu metabolismo também é diferente). Ainda assim, fazendo os cálculos, é fácil compreender que até mesmo um bodybuilder amador com 120 quilos de músculo não deve tomar sequer acima de 300 gramas de proteína diárias, valor que é facilmente superado ao comer uma embalagem destes snacks caninos.

“Quando se supera este valor, todos os nossos órgãos, como aparelho digestivo e rins, têm mais carga de trabalho. Isso também aumenta o colesterol, o risco cardiovascular e, no caso do aparelho digestivo, inchaço, gases e sinais de obstipação”.

Para tirar o maior proveito dos seus treinos, especialistas em nutrição recomendam, em alternativa, fontes seguras e equilibradas de proteína adaptadas às necessidades humanas, como carnes magras, ovos, laticínios, leguminosas e suplementos formulados para consumo humano, que também combinam hidratos de carbono e gorduras de forma a suportar melhor a recuperação e crescimento muscular depois de cada workout.

Carregue na galeria para conhecer algumas receitas proteicas que devia começar a fazer em casa.

ARTIGOS RECOMENDADOS