Família

Morreu Alive, o bode do protetor João Ferreira. “Perdi uma parte de mim”

O protetor algarvio está a viver um grande desgosto. “Serás eterno na minha vida e nunca, mas nunca, te esquecerei”.
Alive e João.

Na causa animal em Portugal, João Ferreira não precisa de grandes apresentações. O protetor algarvio de 29 anos é, desde há muito, um grande amante e protetor de todos os animais, sendo reconhecido como uma figura inspiradora neste meio. Em entrevista à PiT, em agosto de 2022, contou o que o movia e apaixonava e falou sobre os animais que com ele partilhavam a vida, entre cães, gatos e o bode Alive – ainda com poucos meses de idade. Hoje, com dois anos, Alive já não está entre nós. Morreu no passado sábado, 8 de junho, e João está inconsolável. Perdeu um amigo.

“Esperei vinte anos para reunir condições de adotar um animal como tu. Foste um sonho realizado e desde o primeiro dia que te vi, minúsculo após teres sido resgatado, sabia que eras tu. Em apenas um dia já fazias parte da matilha, foram três dias até aprenderes o teu nome e numa semana já éramos inseparáveis. Foste muito desejado, procurei sempre dar-te a melhor vida possível como um membro da família e não como animal de produção como muitos te identificam”, escreve João numa publicação no Instagram intitulada “Alive 15.03.2022 – 08.06.2024”.

Neste tributo emotivo, João conta como foi o tempo em que viveram juntos. “Foram dois anos de muitos risos. Sim, dois anos carregados de alegria em que tu foste o melhor dos melhores. Conhecias a minha voz entre centenas de outras, assim como o som do meu carro que identificavas à distância. Sempre a minha sombra, sempre atrás de mim, sempre nos teus zoomies, e perdi a conta a quantas marradas eu levei nestes dois anos”.

 
 
 
 
 
Ver esta publicação no Instagram
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Uma publicação partilhada por Joao Ferreira (@im.perfectpack)

“Caramba, como vou morrer de saudades tuas”

“A tua confiança, boa disposição e energia eram contagiantes. Embora poucos o percebam, foste como um filho, um animal amado e respeitado. E caramba, como vou morrer de saudades tuas. Eu e a tua inseparável amiga, Alice. Juntos, vocês eram o melhor par, sempre agarrados, sempre a dormir juntos e a partilhar os dias. Foi contigo que ela se tornou mais confiante e feliz”.

A homenagem ao amigo prossegue. “Ali, desculpa, desculpa a negligência de alguns veterinários para contigo. No fim estiveste acompanhado dos melhores, daqueles que tudo fizeram por ti e foram incansáveis. Hoje perdi-te e contigo uma parte de mim. Não é justo que tenham sido apenas dois anos, merecias muito mais. Espero que venhas numa outra vida, para poderes subir novamente em todos os carros, para que possas encher as pernas dos humanos com as tuas marradas, para que te sirvam as tuas saladas rústicas favoritas, meu Ali…”. “Serás eterno na minha vida, onde sempre falarei de ti e nunca mas nunca te esquecerei. We belong together. Alive”, termina João, com o emoji de um coração.

Quando deu a entrevista à PiT, João tinha cinco cães – eram seis, mas tinha acabado de perder Fofinha (Finha), com 16 anos e meio – dois gatos e o bode Alive que tinha acabado de chegar à sua “matilha”. “Achei que a matilha não estaria completa sem um bode. Foi então que há alguns meses o Alive veio juntar-se a nós, após ter sido resgatado pela associação Jardim da Aryel”, contou então.

Alive foi um sonho cumprido

“Para mim não existe diferença entre ele e os meus outros animais. O Alive – Ali para os amigos – é um ser fantástico, dotado de uma inteligência tal que se os outros humanos convivessem com ele o mundo tornava-se vegetariano”, afiançava. “A convivência dele com os cães e os gatos é excelente e com as pessoas é ele quem manda!”, disse ainda. Mais tarde, em abril de 2023, adotou a cabrinha Alice para que Ali tivesse uma companhia da sua espécie e a união foi perfeita. Agora, também Alice sente a perda do seu amigo.

Com a chegada de Alice, João Ferreira ficou, então, novamente com nove animais: cinco cães, dois gatos, um bode e uma cabra. E tudo foi bonito e feliz durante algum tempo – até ter de dizer adeus ao gato Bruno, há alguns meses, e agora a Alive.

A morte de Fofinha tinha já sido muito difícil. “Perder um animal é a maior dor para qualquer pessoa que os veja da mesma forma que eu. A partida da Finha foi a maior dor que senti na vida, maior que qualquer dor física”, desabafou então. Foi muito duro. “Perder um membro da família que me acompanhava há mais de 16 anos foi como perder uma parte de mim que foi com ela. Esse é o único lado mau dos cães, viverem tão pouco. Ainda assim, vivem mais do que o suficiente para nos ensinar a importância das coisas básicas da vida e ela foi a melhor professora que tive”.

Alive
João e Hippie.

A chegada de Hippie

A ausência de Finha, apesar de apenas física, abriu espaço à entrada de outro patudo na matilha de João depois do necessário processo de luto. A 9 de outubro de 2023, o protetor fazia as apresentações. “Bem-vindo à família Hippie. Há um ano e quatro meses perdi a minha companhia de dezasseis anos e meio, a Finha. A única pequenina da matilha, a minha sombra que tanta mas tanta falta me faz e que sempre será insubstituível. Durante todo este tempo pensei se deveria ou não dar a oportunidade a outro pequenote de fazer parte da família”, contou.

“Fui continuando a fazer de família de acolhimento, como sempre faço, mas nunca houve aquela conexão que me tivesse feito pensar duas vezes, até que há três semanas esta amostra de cão chegou ao abrigo, após ter vindo de outra associação onde foi deixado depois de a sua ‘família’ o ter deixado para trás após anos a seu lado. Algo no seu olhar me obrigou a pegar-lhe ao colo. onde rapidamente se aninhou assustado mas curioso. Trouxe-o para casa, começaram a surgir as dúvidas na minha mente enquanto ele encostava a cabeça nos meus braços. Um dia depois já não largava as minhas pernas, dois dias depois já gania de alegria quando me via e as dúvidas continuaram, até porque ele facilmente encontraria uma outra família”, confidenciou João Ferreira.

Mas o amor, que já era muito, ganhou. “A conexão que eu tanto procurei está nele. Sem qualquer sombra de dúvidas, é ele quem eu aguardava para ser parte da família. Pode não ser aquilo que eu idealizava, pode não ser o tipo de cão que eu adotaria à primeira instância, mas se há algo em que acredito é nos meus feelings – que até hoje nunca me enganaram”. “Sim, poderia deixar que fosse para outra família, mas e porque que não eu? Eu que nunca o abandonarei, que nunca deixarei que nada lhe falte e lhe irei sempre proporcionar a melhor vida que me for possível? Assim será. Eras tu quem faltava nesta família, voltamos a ser 10. Hippie Soul”, rematou.

A perda do gato Bruno

Contudo, foram 10 por pouco tempo. No mês seguinte, a 1 de novembro, morria Bruno Jorge, um dos gatos de João, a apenas quatro meses de completar oito anos de vida. Foi mais uma perda violenta. “Bruno, foste um sobrevivente que nasceu na rua. Chegaste doente, magro, com 52 pulgas e um olho perdido, mas ainda assim ronronavas. Fiquei rendido à tua personalidade e temi perder-te pouco depois quando foste internado entre a vida e a morte com uma virose fatal. Prometi a mim mesmo que se conseguisses vencer, eu ficaria contigo o resto da vida. Uma vez mais venceste! Entre cirurgias que correram mal, reações a antibióticos e outros problemas foste sempre um guerreiro”.

Bruno foi um gato que acompanhou João em muitas das viagens que faz com todos os seus animais na carrinha. “Juntos vivemos aventuras que só um gato especial como tu poderia ter vivido, criámos memórias e imaginei uma longa vida contigo, o melhor gato do mundo. Quis o destino que fossem apenas sete anos e meio e tornou o dia de ontem um dos piores da minha vida ao ver-te partir nos meus braços numa luta que não conseguiste vencer contra a insuficiência renal”, escreveu então, dizendo ao seu amigo o quanto ele foi amado.

O primeiro a receber João, de cauda levantada

“Encontrei em ti uma alma gémea felina, o meu grande companheiro, o que todos os dias me recebia em casa de cauda levantada – primeiro até que os cães. Tu, que toda a vida dormiste nos meus braços, que tiveste o meu colo como teu porto de abrigo, tu, que foste perfeito desde o teu primeiro dia. Viajaste por Portugal inteiro, correste livre em praias lindas, bebeste água de cascatas no Gerês, subias às árvores mais altas dos campos que visitámos, andaste de carro, barco, Uber, paddle, etc. Estás gravado em livros, espalhaste magia em programas de TV, foste maravilhoso em ações de sensibilização em escolas e lares. Estás tatuado no meu corpo e no meu coração”, desabafou João.

A partida de Bruno doeu também muito a Carlos Filipe, o fotógrafo que já tirou muitos e belíssimos retratos à matilha de João – incluindo a este gato tão especial – e que tem uma rubrica na PiT.

Alive
João com os seus atuais sete cães. Carlos Filipe Photography

A entrada de Kind na matilha

Nessa altura, ficaram apenas nove. Seis cães – Alex, Hippie, Chlöe, Yara, Spirit e Allegra –, o gato Nilton, bem como o bode Alive e a cabrita Alice. Mas não demorou a que este protetor voltasse a abrir o seu coração, embora sem estar à espera. Foi a 6 de março deste ano que João Ferreira anunciou a chegada de Kind, um patudo bebé. “Vieste fora dos planos. Não era para existir um sétimo cão na matilha. Possivelmente a decisão mais impulsiva que tomei nos últimos tempos. Não queria mais um cão macho, muito menos um cachorro, e vieste tu, imponente e cativante, preparado para agitar ainda mais a minha vida. Um decisão que será eterna, onde prometo dar-te sempre o meu melhor”, anunciou.

“A matilha está agora definitivamente completa. Ao fim de doze anos sem adotar um cachorro, chegou o momento. Se acredito em destino, tu és parte dele. Foste fruto de mais uma irresponsabilidade humana, o que te fez nascer diferente mas essa diferença não será impedimento de uma vida feliz e capaz. Os teus irmãos e eu cá estaremos para te aturar e ajudar. Que sejas muito feliz connosco. Kind of Magic – mais conhecido por T-Rex”, disse João.

Agora, com a partida de Alive, voltam a ser apenas nove. E João Ferreira, que faz 29 anos esta terça-feira, 11 de junho, tem o coração partido. Irá sará-lo com o amor que recebe todos os dias daqueles que ama, mas a saudade ficará para sempre. Percorra a galeria para conhecer os seus animais – que, para este protetor, serão sempre eternos.

ver galeria

ÚLTIMOS ARTIGOS DA PiT