Família

Preta viveu 20 anos nas ruas de Alvalade. Foi finalmente adotada pela sua cuidadora

Beta cuida da gata há mais de 15 anos. Agora, vai oferecer-lhe o conforto de que precisa para aproveitar os anos dourados.

“Ao fim de tantos anos, quando já estou reformada e velha, apanhei uma velha para aqui”. É assim que Beta, como gosta de ser chamada, começa por contar à PiT, entre risos, a incrível história que partilha com Preta (Pretinha, para os amigos). A gata, que vive no bairro de Alvalade, em Lisboa, desde meados de 2002, foi finalmente apanhada pela cuidadora há cerca de um mês e está a adaptar-se à vida em casa.

“Eu disse sempre ao meu marido ‘A única coisa que eu gostava era de levar a Pretinha para casa'”, recorda Beta, que conheceu a gata cerca de dez anos depois de se mudar para Alvalade. Hoje, aos 67 anos, a antiga funcionária de um salão de beleza já não se lembra do ano exato em que a viu pela primeira vez, mas tem uma certeza: “Foi mesmo há muito tempo”.

Nos últimos meses, decidiu levar a velhota para casa, quando percebeu que a idade avançada (e impressionante para uma gata de rua) estava a tornar tudo mais complicado. “Ela deitava-se ao sol ao pé dos pneus e as pessoas entravam no carro e não reparavam”, explica. “Um dia que fui lá para lhe dar comer, uma senhora disse-me que teve de gritar para uma mulher num carro para não se mexer porque se não, passava-lhe por cima”, acrescenta.

A captura, porém, foi tudo menos fácil. Isso porque durante os vários anos que cuidou de Pretinha (uma gata considerada selvagem), passou por momentos bons e alguns, nem tanto. Por duas vezes, por exemplo, teve de lhe tirar os filhotes e encaminhá-los para adoção. A atitude não foi bem vista pela progenitora que acabou por ficar “zangada”.

“Desde então, ela fugia sempre de mim, mas dos outros não”, partilha. “As pessoas foram-se afeiçoando a ela, e ela às outras pessoas. Não sei se foi por lhe ter tirado os filhos, que eram iguais a ela”, diz, acrescentado que após a terceira gravidez, entrou em contacto com uma associação para esterilizá-la. “Este dia, estivemos até às 21h à espera que ela entrasse na gaiola”, recorda. “Ainda não esqueci os gritos que ela deu, nessa altura tinha três bebés”? diz, acrescentando que Preta não foi devolvida ao mesmo sitio pela associação por ser uma “gata selvagem que não poderia ser adotada”.

A tutora partilha que, segundo a veterinária, Preta está bem de saúde. “Ela nunca viu uma gata a viver na rua sem problemas maiores. Nem pulgas tinha”, sublinha, acrescentando que a felina tem apenas uma doença renal, mas que é regressiva. Não precisa de medicamentos, basta comer uma ração própria para a condição.

Outro problema que tinha mas que já foi tratado eram as unhas enormes. “Estavam a encaracolaram e lhe estavam a furar a carne nas patinhas, tanto que tinha pus e tiveram que a sedar para as cortar”, refere.

Beta e Pretinha.

Esta sexta-feira, 1 de março, Pretinha completou um mês no novo lar e já parece outra. “Eu pego-lhe ao colo, penteio-a, faço-lhe festinhas, ela lambe-me as mãos, é muito sossegadinha”, conta. “Ela agora anda muito bem, já não está como antes, por causa das unhas”.

Para conseguir acolhê-la, a amante de animais levou peixe para atrair a felina e pediu aos outros vizinhos que não colocassem comida. “Antes, metia-lhe o comer e ela fugia, tinha de pôr debaixo do carro e eu não conseguia deitar-me no chão. Desta vez, ela já estava muito mal, porque já tinha as unhas enroladas, então andava pouco”, destaca.

No passado, quando a tentou capturar, agarrou-a de frente e acabou toda arranhada. Agora, em fevereiro, fez como a veterinária tinha ensinado: pelo rabo. “Ela entrou para a gaiola e foi para a clínica”, diz. “A veterinária mostrou-me um saco cheio de pelos mortos”.

“Ela agora consegue passar os últimos dias ou meses que lhe restam tranquila”

O primeiro contacto que teve com Preta foi durante uma das suas gravidezes. Quando ainda trabalhava no salão de beleza, lembra-se de, ao longe, ver uma “gatinha com uma barriga muito grande”. Na altura, era uma gata jovem e muito mais ágil.  “Depois, ela deixou de aparecer e passado uns dias, veio novamente comer”, recorda à PiT. “Comecei a dar-lhe comer”. Desde então, a dupla nunca mais se separou.

Os anos, porém, foram passando e houve alturas em que a cuidadora não conseguia estar com a companheira, nomeadamente quando ficou doente e não saia de casa. Porém, Preta nunca ficou sem amor e cuidado — acabou “adotada” pelos vizinhos que já a conheciam, especialmente Ana, Manuela e Sofia que conseguiam fazer-lhe festas.

Natural do Alentejo, Beta sempre teve uma paixão especial pelos animais e cresceu rodeada por eles. Além de Pretinha, é tutora de duas gatas, de sete e oito anos, e brinca a dizer que as companheiras “têm mais doenças” do que a mascote de Alvalade. Hoje, a gata que viveu mais de 20 anos na rua está a viver como uma rainha: tem o próprio quarto, que antes pertencia a um dos filhos da tutora.

“Quando chove, eu digo-lhe: ‘Está a chover, Pretinha, agora escusas de estar a correr'”, aponta. “Agora, está agradecida mas ela que foi parva e não se deixava apanhar”, acrescenta, entre risos. Quando foi resgatada no início de fevereiro, pesava cerca de dois quilos. Agora, Beta avança que a companheira já está perto dos três e que vai passar o tempo que ainda tem a viver tranquila.

Até hoje tem contacto com as famílias dos bebés de Preta

Daqueles gatinhos que conseguiu salvar, todos foram encaminhados para adoção. Alguns acabaram acolhidos pelos cuidadores da mamã e outros, por conhecidos. Capturá-los nunca foi uma tarefa fácil, e Beta confessa que alguns não chegaram a sobreviver para contar história. Numa das vezes que foi mãe, a protetora recorda-se de ver Pretinha a carregá-los na boca até a um carro.

“Um dia, vi-a a atravessar uns arbustos com umas coisas penduradas na boca. Comecei a olhar e eram os filhos”, recorda. “Vinha com eles na boca, entrou dentro de um carro estacionado ali à porta [do trabalho] e meteu os bebés lá dentro. Depois, voltou para trás para ir buscar os outros. Um deles morreu, foi atropelado pelo caminho”, lamenta.

Naquele dia, lembra-se de ir chamar o dono do carro que abriu o capô para ajudar. “Ela tinha os posto em cima, eu embrulhei-os numa toalha e quando ela voltou, chorou e miou tanto…”, refere. Apesar da dor de os tirar da progenitora, a cuidadora sabia que era a melhor opção. Hoje, os bebés que sobreviveram já são adultos e muito mimados pelas famílias que mantêm contacto com Beta.

Bufas, uma das filhotes que é a cara da mãe.

Beta não sabe quanto tempo lhe resta ao lado de Pretinha, mas tem a certeza de que vai aproveitar cada momento. “O meu marido estava sempre a dizer ‘Oh Beta, nós já apanhámos muitos desgostos’ mas eu disse ‘A minha Pretinha tenho de saber como está. Assumi um compromisso com ela'”, frisa. “Estou tão contente, depois de tanto tempo”.

Agora, onde Preta costumava viver, há dois gatos mais jovens que se tornaram nos seus amigos nos últimos anos. Charlot e Tomé são mais ariscos e estão sob os cuidados da vizinha Ana. Contudo, assim como Preta, são muito bem tratados. Não vai ser fácil, mas quem sabe consigam ultrapassar o recorde de idade da companheira…

A seguir, carregue na galeria para conhecer Pretinha e os gatos que hoje dormem onde ela dormia.

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