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“Quando eles partem”. Escritora espanhola Julia Navarro escreve livro sobre o luto

"O livro é uma celebração do amor incondicional dos cães, dedicada a Argos. Chegou às livrarias esta quinta-feira, 2 de abril.

Há livros que nascem de ideias. Outros, de memórias. E depois há aqueles que nascem da dor — mas também do amor. Quando eles partem, de Julia Navarro, pertence claramente a esta última categoria.

É o livro mais pessoal e emotivo da famosa escritora espanhola e parte da dolorosa perda de Argos, o pastor alemão que a acompanhou durante 14 anos e muitas horas de escrita, para uma homenagem universal, e intemporal, ao vínculo humano-animal.

Entre o diário e o ensaio, o livro retrata o papel fundamental dos animais na vida dos seres humanos, particularmente dos cães, seguindo a sua presença na história da nossa cultura: dos livros aos filmes, dos quadros de museu aos factos históricos.

Tudo começa com Argos. Ou melhor, com a ausência dele. “A verdade é que eu estava a escrever um romance quando o Argos morreu”, conta a autora. “Para mim foi um momento muito angustiante, porque não soube como lidar com isso. O Argos morreu nos meus braços e, além disso, tive de tomar a decisão de o eutanasiar. Tinha ficado tetraplégico, já não comia, não bebia, não se podia mexer. Foi na Páscoa de 2024, recorda a escritora numa entrevista concedida à revista Zenda Livros.

O que se segue é um relato profundamente humano: a doença súbita, a recusa em aceitar o fim, a esperança agarrada a cada nova consulta. “Foi um peregrinar por hospitais e clínicas veterinárias à procura de alguém que me dissesse que ele ia recuperar, que ia sobreviver. Em todo o lado me diziam o mesmo: não há nada a fazer, chegou ao fim, está a sofrer muito. Eu recusava-me a aceitar”.

“Até que uma veterinária me disse: ‘Deixa-o ir, ele está a pedir para partir’.” Julia abraçou-o, falou-lhe, despediu-se. “Morreu nos meus braços.”

Esse momento — duro, íntimo, transformador — tornou-se o ponto de partida para um livro que vai muito além da despedida. Porque, como a própria diz, “não se pode contar a história da humanidade sem os cães”.

Muito mais do que um livro de luto

Embora nasça da perda, Quando eles partem não é apenas um livro sobre o fim. É, acima de tudo, um livro sobre ligação. 

Julia Navarro percebeu rapidamente que a história de Argos, sendo profundamente pessoal, tocava algo universal. “Achei que a história pertencia apenas ao meu âmbito pessoal”, confessa. Mas decidiu ir mais longe: “Quis fazer um lembrete da importância que os cães tiveram na vida dos homens desde o início dos tempos.”

Desde as cavernas pré-históricas até à arte, à literatura ou à guerra, os cães sempre estiveram ao nosso lado. Companheiros silenciosos, fiéis, constantes. “Desde os primórdios que estão lá, a acompanhar-nos”, lembra.

O que um cão nos ensina

Se há uma palavra que atravessa todo o livro, é lealdade. “A lealdade. Um cão nunca te abandona”, diz Julia, sem hesitar. “Toda a gente te pode deixar, mas ele nunca se vai embora. Partilhará o teu destino e acompanhar-te-á até ao fim sem pedir nada. Não há ser mais leal e mais desinteressado do que um cão”

Não há dramatismo nesta afirmação — há verdade. Quem já teve um cão reconhece-a imediatamente. E quem nunca teve, talvez passe a olhar de forma diferente.

É esse, aliás, um dos desejos da autora: “Gostava que aqueles que nunca tiveram um cão, depois de o lerem, os olhassem de outra forma.”

Escrever para sobreviver ao luto

Nem sempre é fácil transformar dor em palavras. Para Julia Navarro, foi quase inevitável. “Não sabia como lidar com o luto… fi-lo escrevendo.” E mais do que isso: encontrou na escrita uma forma de organizar o caos emocional. “Esta é uma forma de me expressar, de comunicar com os outros da maneira que melhor sei.”

Ainda assim, admite: expor-se não foi simples. “Tenho a sensação de que neste livro fiquei completamente exposta.” E talvez seja precisamente isso que o torna tão especial.

Educar para respeitar

Mas há também uma mensagem clara — quase urgente — que atravessa o livro: a forma como tratamos os animais diz muito sobre nós. “Não basta ter leis nem punições. É preciso educar”, defende. E essa educação começa cedo. “Desde o pré-escolar é preciso ensinar as crianças a respeitar os outros seres vivos.”

Porque um cão não é um brinquedo. Não é entretenimento. É família. “São companheiros de vida, têm direitos, sentem e devem ser tratados com respeito e amor.”

Argos… e depois Barbie

Argos continua presente — nas memórias, nas páginas e até no processo criativo da autora. “Eu contava-lhe as minhas histórias… ele sabia tudo”, recorda com ternura.

Mas a vida, mesmo depois da perda, encontra forma de continuar. Meses depois, chegou Barbie. “Adotei-a e já se chamava Barbie”, conta, divertida. “Tinha três anos e já se chamava Barbie. Quando as pessoas souberam, tentaram convencer-me a mudar-lhe o nome. Diziam-me: ‘Mas tu és feminista, não podes ter uma cadela chamada Barbie’. Eu respondia que me dessem uma única razão para uma cadela que sempre se chamou Barbie deixar de se chamar assim. Os preconceitos estão na cabeça dos outros, não na minha nem na da Barbie.”

Um apelo simples, mas essencial

Se há uma mensagem que Julia Navarro quer deixar bem clara, é esta: “Por favor, não comprem cães como presente.” Sobretudo em épocas festivas, quando a ideia de oferecer um animal pode parecer encantadora — mas nem sempre responsável. “Quando alguém leva um cão para casa, está a levar um membro da família.”

E se não for para ser assim, talvez seja melhor outra prenda. Melhor ainda: adotar. “Há muitos cães à espera de uma família.”

No fim, talvez tudo se resuma a uma frase, como a própria autora sugere: “Este é um livro sobre o amor e a lealdade incondicional.”

 

Carregue na galeria para conhecer a história de François Schuiten e a forma como este autor e ilustrador belga lidou com a morte do seu cão, Jim. “Queria desenhar o Jim para fazer o luto e aceitar que tinha de o deixar partir. Queria desenhá-lo para compreender tudo o que se passou entre nós”. Os desenhos de Schuiten deram origem ao livro Jim, publicado em Portugal pela editora ASA. 

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