“Era só um animal”. “Arranjas outro e isso passa.” “Não estás à exagerar?” Quem já perdeu um animal de companhia, possivelmente, já ouviu alguma destas frases. Possivelmente, até já sentiu que estava mesmo a exagerar. Ou a enlouquecer. Afinal, era “só” um cão, ou “só” um gato. Mas um animal não é uma coisa que se substitua. Existe uma relação única, construída ao longo do tempo, com significado emocional.
Por isso, quando eles morrem a dor é real. O sofrimento existe. Mas o luto continua a ser desvalorizado socialmente, apesar do impacto profundo que esta perda tem na vida de muitas pessoas. “A sociedade continua a olhar para a perda de um animal como uma perda menor. E o luto por um animal de companhia continua, em grande parte, a ser um luto não reconhecido”, afirma a psicóloga clínica Teresa Cabano em entrevista à Pets in Town.
Teresa ajuda-nos a perceber o motivo deste luto não reconhecido que empurra muitas pessoas para um isolamento emocional e para um sofrimento prolongado. “Eu penso que isto tem origem no facto de a relação de vinculação entre a pessoa e o animal não ser reconhecida. Não se reconhece que uma relação com um animal pode ser muito importante a nível emocional e até estruturar o dia-a-dia da pessoa. Como não há o reconhecimento da relação, quando há a perda, ela é desvalorizada”, explica.
A dor da perda de um animal existe mas “muitas vezes não nos permitimos senti-la”. “E quando o outro nos diz que estamos a exagerar, não só não valida a nossa dor como a agrava. Está implicitamente a dizer que aquela relação não era assim tão importante.”
Liberdade para Sentir nasce para acolher e legitimar a dor
Mas, segundo Teresa Cabano, “é fundamental haver espaço e liberdade para sentir essa dor”. Foi por isso que em setembro de 2025 decidiu criar o projecto Liberdade para Sentir: sessões de acompanhamento psicoterapêutico onde cada pessoa “pode expressar a sua dor sem julgamentos, compreender o seu processo de luto e encontrar estratégias para integrar a perda de forma saudável e adaptativa”.
“Sei o impacto que os animais têm nas nossas vidas e como as suas perdas podem ser devastadoras e silenciosas. Decidi então dedicar-me exclusivamente ao apoio psicológico no luto por animais de companhia, para dar liberdade de sentir esta dor tantas vezes desvalorizada e minimizada.”
Teresa Cabano revela que os sentimentos que mais surgem nas consultas são tristeza profunda, saudade intensa e surpresa. “Muitas pessoas ficam surpresas com a imensidão da tristeza e da dor que estão a sentir.” “Quando chegam às consultas, as pessoas estão com muita, muita dor, estão isoladas nas suas emoções e nos seus sentimentos”, conta a psicóloga clínica.
Teresa revela também que algumas pessoas manifestam o receio de estarem a “perder a cabeça” ou a “ficar malucas”, precisamente, porque a sua dor não é validada pelos outros. Porque os outros lhe dizem: “não é caso para tanto”, ou “não precisas de estar a chorar todos os dias”.
Além disso, em alguns casos, a perda do animal funciona também como um gatilho para outras perdas antigas, nunca totalmente processadas. “A pessoa não está apenas a chorar o animal — está a chorar várias dores ao mesmo tempo.”
Nas consultas de Teresa Cabano, o trabalho começa pela validação da dor e por legitimar o luto. “A perda de uma relação significativa vai, necessariamente, fazer-nos sofrer.” O objetivo é integrar a perda na biografia da pessoa e ajudá-la a adaptar-se a uma nova realidade em que o animal já não existe.
Muitas das pessoas que recorrem a estas sessões de psicoterapia, fazem-no pela primeira vez, o que, segundo Teresa Cabano, mostra o “tipo de relação de vinculação e a importância que os animais têm na vida das pessoas”. “As pessoas têm relações muito nutritivas e saudáveis com os seus animais. Porque o animal dá algo que não é possível nas relações entre as pessoas: a aceitação incondicional. Há uma total ausência de julgamento ou crítica, e uma reciprocidade afectiva diária e constante. Os animais tornam-se, assim, portos seguros emocionais muito fortes.”
As rotinas, o cuidado e a responsabilidade reforçam o vínculo. “Estão reunidos todos os ingredientes para uma relação profundamente significativa. Por isso, quando um animal morre, o impacto é grande.”
O luto não reconhecido
A grande diferença entre o luto por um animal e o luto por uma pessoa não está no processo psicológico em si, mas no facto de o luto por um animal não ser reconhecido. “Não temos o apoio da sociedade. No luto por uma pessoa há rituais, apoio, dias de luto, compreensão coletiva. No luto por um animal, nada disso existe. E isso torna o processo mais difícil.”
Teresa Cabano explica que “o processo de luto em si prende-se com a relação que existia. Logo, as pessoas podem sofrer tanto ou mais por um animal do que por uma pessoa. Tem a ver com a relação que existia e com o que ela significava”. Ou seja, o sofrimento está ligado à relação, não à categoria da perda. Adaptar o dia-a-dia, reorganizar a identidade, lidar com a ausência — tudo isto acontece de forma semelhante.
Mas “parece que há uma espécie de hierarquia de dores. Umas dores valem mais do que outras. Isto é uma construção cultural. A ciência e a biologia não corroboram isto”.
Cerca de cinco meses passados após a criação do projecto Liberdade para Sentir, Teresa revela que este tem tido uma adesão inesperada. Aqui as consultas são realizadas online para facilitar o acesso e reduzir barreiras como a vergonha ou a exaustão emocional dos primeiros tempos após a perda.
Neste espaço, Teresa ajuda os seus pacientes a dar nome à dor, a validá-la e a acompanhá-la. “Enquanto sociedade, precisamos de aprender a reconhecer estas perdas. Porque reconhecer o luto é reconhecer a relação. E nenhuma relação significativa deveria ser invisível.”
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Na fotogaleria conheça a história de François Schuiten e a forma como este autor e ilustrador belga lidou com a morte do seu cão, Jim. “Queria desenhar o Jim para fazer o luto e aceitar que tinha de o deixar partir. Queria desenhá-lo para compreender tudo o que se passou entre nós”. Os desenhos de Schuiten deram origem ao livro Jim, publicado em Portugal pela editora ASA.









