Rita Blanco não tem papas na língua, quando se trata de lutar pelos animais. E não é só pelos seus que fala, mas sim por todos os que continuam a ser maltrados pela mão humana. E não contém a revolta quando ouve a desculpa da “tradição”.
“Qual tradição? As tradições mudam e evoluem. Senão, estávamos na idade da pedra”, salienta à PiT. A atriz, que completou este ano 60 anos, é “totalmente contra” a tourada. Ainda assim, considera que a ficha lhe “caiu muito tarde”: “Tenho muita pena de não ter percebido isto muito antes. Teria evitado algum sofrimento”.
A atriz já assistiu a touradas mas há anos que não põe os pés numa praça. E tem esperança de que as pessoas que apoiam a dita “tradição” façam o mesmo: “Acredito que hão de evoluir, ao ponto de perceberem que há coisa que já não são possíveis”.
Para Rita Blanco, a tourada “é um negócio como outro qualquer, em que há pessoas a ganhar dinheiro com ele”. A atriz, que interpreta a personagem de Natália Sousa, na novela da SIC “Flor Sem Tempo”, não percebe, no entanto, como é que há pessoas a “ter prazer com o sofrimento de outros seres”: “Ali, não há um mano-a-mano. Porque o toureiro vai lá porque quer. O touro não”.
“Nenhum touro diz: ‘Olha, vou ali um bocado ser toureado e já volto’“, ri-se ironicamente. Rita Blanco espera que as pessoas entendam que “nenhum touro quer ser humilhado”: “Vamos é acreditar que serão rápidas a percebe-lo”.
“Se o tráfico humano é crime, o dos animais também devia ser”
Rita Blanco ama os seus cães, e ninguém tem como negar isso. Mas, pela atriz, eles não estavam na sua vida: “Francamente, se não adotasse animais, não os teria. Num mundo perfeito, eles estariam nas suas vidas e não haveria tantos. Porque não há pessoas para cuidar deles”, esclarece à PiT.
Com centenas de animais a serem abandonados todos os anos, o coração apertado da atriz não resiste a acolher mais um em sua casa. Mas compreende que Amélia, Óscar, Lobita, Ursinha e os seus dois gatos não estão no seu “habitat natural”. Por isso, percebe ainda menos quem faz criação e quem compra”.
“Se o tráfico humano é crime, o dos animais também devia ser. Tal como as crianças não devem poder ser compradas, os animais também não. São seres vivos”. Ainda que Rita Blanco saiba que há muitos criadores a ter os cuidados necessários para garantir o seu bem-estar, não deixa de considerar que é uma ação contranatura: “É uma violência e disparate. Os animais são obrigados a reproduzirem-se e não faz sentido nenhum”.

A atriz aponta ainda que a criação de animais perpetua a uma “série de outras coisas contra as quais luta diariamente”: “Há milhões de animais nas associações, que nunca vão ter dono na vida. Essas mesmas pessoas, as que compram animais, vão acabar por abandoná-los, sem os castrarem ou esterilizarem”.
Rita Blanco costuma ir regularmente à associação UPPA, sediada em Sintra, de onde adotou a cadela Amélia, que já desfilou na apresentação da Nova Temporada da SIC, para apelar a adoção de animais.
Rita Blanco acordou tarde, mas a tempo de causar mudança
Não foi só a ficha das touradas que caiu tarde. Também a da alimentação de origem animal foi demorada, e foi um documentário que despertou a atriz: “Pensei: ‘Não acredito que sou tão hipócrita. Que diga que gosto imenso de cães e que coma um leitão. Não estou boa da cabeça'”.
Este pensamento fê-la adotar um estilo de vida vegetariano, que mais tarde derivou para vegan. Mas confessa que abre exceções e que não é fundamentalista: “Fundamentalistas são os outros, que comem os bichos todos [risos]. Eu tento fazer o melhor que sei, mas às vezes falho”.
Já comeu peixe, mas de carne tem “zero saudades”. Se a obrigassem a comer, não tinha nojo, mas, para a atriz, continuam a ser “cadáveres” que ali estão. Até fica mal disposta quando abre as ditas exceções: “No outro dia, comi ameijoas e disse a mim própria: ‘Pronto, elas não têm cara’. Que estupidez. Não faz sentido”, conta.
Apesar de lutar diariamente pelos animais, não suporta quando lhe perguntam se gosta mais deles do que dos humanos: “Não é isso. No dia em que as pessoas deixarem de ser capazes de fazer mal aos animais, garanto que também deixarão de fazer mal às pessoas”, remata.
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