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SmileDog: Estes cães fazem contas e mudam vidas nas escolas portuguesas

Syrah, Naia e Spike são a estrelas que põem miúdos a falar e a contar. São cães terapêuticos e fazem um trabalho incrível.

Tinha seis anos, mas mal abria a boca para falar. Os seus dias eram silenciosos e a professora conhecia a sua voz através de duas ou três palavras. Os dois anos em que esteve em psicólogos e em terapias de nada fizeram. Tudo mudou quando viu Syrah. Passados 20 minutos, não se calava, querendo saber mais sobre a cadela Cane Corso.

Não foi um milagre que pôs a miúda com mutismo seletivo, uma perturbação de ansiedade que faz com que a pessoa se recuse a falar com certas pessoas ou em certas situações, a falar. Mas sim, os cães terapêuticos da SmileDog.

Nuno Santos, 50 anos, sabia por alto os efeitos positivos que os cães podiam ter na vida de uma pessoa. Afinal, sempre teve companheiros de quatro patas em casa. Mas queria saber mais e causar alguma mudança com aquilo que aprendesse.

Por isso, a somar aos computadores e à sua carreira na engenharia informática, inscreveu-se numa pós-graduação em “Intervenções Assistidas por Animais”, pelo Instituto Superior de Educação e Ciências de Lisboa (ISEC). E levou Syrah consigo, a sua cadela de dois anos resgatada de um abrigo em Palmela (Setúbal), onde vive: “Era para ser só um animal de companhia, mas foi para uma escola de obediência e depois fomos os dois para a faculdade [risos]”, conta à PiT Nuno Santos.

Aliás, foi exatamente por ser apenas destinada à companhia, que Syrah demonstrou as suas capacidades para algo mais: “Fomos uma vez ao Pavilhão do Conhecimento, no Dia Mundial do Animal. Eles tinham uma iniciativa, o “PATAporte”, que permitia que os cães que passassem nos testes pudessem visitar o museu”. A cadela saiu-se lindamente e acabou por ser convidada para outra atividade, meses mais tarde: “Eles iam ter um workshop de terapia assistida e nós fomos. E a pessoa que o estava a dar, acabou por ser minha professora na faculdade”.

E não foi apenas no Museu de Ciência Viva que adoraram a Cane Corso. Nuno e Syrah acabaram o curso com grande sucesso, prontos para dar o próximo passo no que os tinha levado até ali. Escolheram as escolas e os mais novos para serem o primeiro alvo da ajuda que ele e Syrah tinham para oferecer e apresentaram a ideia do projeto SmileDog à Câmara Municipal de Santarém, que começaria apenas com cinco miúdos e duraria três meses.

Já lá vão três anos, quase 50 miúdos e três cães. Além da Syrah, Nuno resgatou mais dois cães, treinou-os e certificou-os no ISEC. Agora, Naia, três anos, e Spike, seis, o membro mais recente da equipa, também conseguem pôr palavras na boca dos miúdos.

Syrah é muito mais do que uma cadela e muito mais do que uma professora.

Sabem contar, diferenciam as cores… Não, não são os miúdos: são os cães

Nuno abre e fecha a mão. E estes simples gestos são o que permitem aos cães contar. E sabem mesmo distinguir os números: “Quando dizemos o número um, por exemplo, o cão ladra. Baixinho, para não assustar, mas, desta forma, os miúdos vão aprendendo a fazer contas”.

O mesmo acontece com as cores. Colocam vários “pingos”, como Nuno os descreve, de cores diferentes no chão, e atribuem cada um deles a uma ação: “Dizemos, por exemplo, que no verde é para sentar e no azul para levantar. Fazemos uma vez e, quando é para repetir, o miúdo já não se lembra. Mas a Syrah sabe e ensina-o a distinguir as cores”, explica o fundador do projeto.

A SmileDog costuma intervir semanalmente em miúdos com dificuldades na aprendizagem, devido a problemas de concentração ou sociabilização com outros. Desta forma, tanto atuam nos que frequentam a primária, como aqueles que já estão no nono ano, sempre adequando os exercícios às necessidades de cada um.

Um dos miúdos que mais mexeu com Nuno tinha 12 anos. Assim como a primeira, a rapariga tinha mutismo seletivo e apenas falava com alguns professores, mas “sempre baixinho e muito atrapalhada”. “Não falas nem brincas connosco”: atacavam as colegas, e não levou muito tempo até que meros comentários evoluíssem para o “bullying”.

Estava na altura de Syrah intervir. Numa aula de Educação Física, levaram a cadela e disseram que cada um podia brincar um pouco com ela no final. Mas com uma condição: “Tinha que ser a menina a escolher”. Rapidamente a miúda ficou popular, pois, além dos restantes colegas quererem brincar com a patuda, ela só escolhia aqueles de que mais gostava.

Sempre com o dístico “SmileDog” a espalhar sorrisos.

Seja com a matemática ou com as práticas de sociabilização, os cães da SmileDog conseguem transformar vidas. E foi isso que fizeram nas escolas de Santarém, Almeirim e Porto de Mós (Leiria). Mas, apesar de ver o projeto a crescer, Nuno sente que ainda falta alguma coisa: “Os miúdos com autismo precisam de ser acompanhados diariamente por um cão. Mas não é um cão qualquer”.

“Os médicos muitas vezes aconselham os pais a ter um cão. Mas isto é errado”. Aliás, o pensamento está correto, mas tem de ser um cão treinado e certificado em terapia, se não os pais ficam com dois trabalhos: “Têm que educar um cão e têm a criança na mesma situação”.

Desta forma, o novo projeto de Nuno vem acabar com esse problema e o seu arranque está já previsto para janeiro: “Vamos ter uma bolsa, de forma a conseguirmos recuperar cães dos canis para terapia, como já fazemos, mas desta vez cedê-los aos pais”, remata.

Syrah era só mais um animal de companhia, mas que escondia um grande dom de ajudar o próximo. Nuno era só mais um engenheiro informático, com uma grande paixão por animais, mas com um grande propósito por descobrir. Juntaram as habilidades e há quase 50 miúdos a agradecer por isso. E muitas mais virão.

Carregue na galeria para ver a intervenção do SmileDog nas escolas e nos miúdos.

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