Uma pequena escultura de um cão-salsicha azul acabou por se tornar num presente de casamento com um significado especial. Rosario Rodriguez Cuña tinha criado a peça em cerâmica sem pensar num destinatário específico, até uma cliente a encontrar e perceber que lhe fazia lembrar o cão da família, que já tinha morrido. Decidiu então oferecê-la no casamento do filho, levando de alguma forma a memória do animal até à cerimónia. A cor também ajudou: o azul cumpria a tradição de levar algo dessa cor para o casamento. “Esse tipo de coisas deixa-me sempre com o coração cheio”, conta.
Histórias como esta aparecem de vez em quando no projeto que Rosario, de 39 anos, tem construído a partir de Braga. No seu trabalho há cães, gatos, polvos, olhos, bocas, línguas, rostos e referências ao mar, que aparecem em chávenas, pratos, esculturas, brincos e objetos decorativos.
Tudo é feito à mão e os preços começam nos 20€, ou até menos nas peças mais pequenas, e podem ultrapassar os 50€, consoante a dimensão e a complexidade. Na loja online, por exemplo, encontram-se esculturas de cães a 20€, brincos em porcelana e aço inoxidável a 28€, peças decorativas a partir de 39€ e criações maiores que chegam aos 65€.
Natural de Pontevedra, na Galiza, Rosario estudou Design Têxtil e Moda, mas a cerâmica só apareceu mais tarde e a mais de 1500 quilómetros de casa. Depois da formação, mudou-se para Londres, onde passou oito anos a trabalhar na indústria têxtil. Como os dias eram sobretudo passados num escritório, começou a sentir falta de fazer alguma coisa com as mãos. “Queria fazer alguma coisa diferente. Havia um ateliê de cerâmica perto e era algo que me atraía e que nunca tinha experimentado.”
Inscreveu-se em cursos e começou a frequentar semanalmente um atelier. Ao início, pensava que poderia fazer algumas joias, mas o barro acabou por levá-la noutra direção. “Comecei e adorei trabalhar com o barro e fazer esculturas. Foi algo de que gostei muito.” A cerâmica passou a fazer parte da rotina e acompanhou-a até à mudança seguinte.
Pouco antes da pandemia, em 2020, o marido recebeu uma proposta profissional em Braga e o casal mudou-se diretamente de Londres para a cidade minhota. O momento não era propriamente o mais fácil para continuar a trabalhar com cerâmica. “Quando cheguei, foi complicado encontrar um lugar para fazer cerâmica, também porque coincidiu com a pandemia.” Na altura, recorda, ainda existiam poucos espaços dedicados à área em Braga.
A solução apareceu em Santo Tirso, onde começou a trabalhar no atelier Escape e a vender algumas das criações. Entretanto, começaram a surgir novos projetos ligados à cerâmica e Rosario montou o próprio atelier em casa. É lá que atualmente modela e pinta as peças. Como ainda não tem forno próprio, recorre a outros espaços para fazer as cozeduras.
Ao mesmo tempo, continua ligada à indústria têxtil. Desde junho, reduziu o trabalho nessa área para quatro dias por semana, o que lhe permite dedicar mais tempo à cerâmica, participar em mercados e desenvolver novas peças.
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O grés, um barro preparado para altas temperaturas, é a matéria-prima que usa com maior frequência. Depois de modelar cada peça, chega uma das partes de que mais gosta: decidir como a vai pintar. As cores são aplicadas antes do vidrado final e das cozeduras e, entre uma ideia desenhada num caderno e o objeto pronto, podem passar cerca de duas semanas. A peça precisa de secar completamente, passa por uma primeira cozedura, é pintada e vidrada e volta depois ao forno.
Os animais começaram entretanto a ocupar cada vez mais espaço no seu trabalho. Rosario sempre teve cães e, nos últimos anos, passou a dedicar uma parte maior do projeto aos retratos e esculturas de animais de estimação. Agora prepara também uma coleção centrada nestas figuras. Os próprios clientes ajudaram a levar o projeto nessa direção, com pedidos de peças que reproduzissem os seus companheiros de quatro patas.
Nas encomendas personalizadas, basta enviar uma fotografia do animal para Rosario usar como referência e o processo costuma demorar entre duas e quatro semanas. Também faz retratos de pessoas pintados à mão em pratos, além das esculturas e outras peças já prontas que vende através da loja online e nos mercados onde participa. As encomendas podem ser enviadas para Portugal, Espanha e outros países.
Nada disto começou com um plano para transformar a cerâmica num negócio. “Comecei a fazer peças mais por hobby e algumas pessoas queriam comprar.” Rosario também gostava de fotografar aquilo que fazia e começou a mostrar o resultado nas redes sociais. “Pouco a pouco fui tendo um bom feedback e decidi abrir o site. Foi tudo muito natural.”
Entretanto, começou também a partilhar aquilo que aprendeu através de workshops. Costuma organizar uma sessão aproximadamente a cada três meses, conciliando as datas com o trabalho na indústria têxtil e a participação em mercados. A próxima acontece sábado, 26 de setembro, entre as 15 e as 17 horas, no Corpo Cerâmico, na Rua Cruz de Pedra, em Braga. O atelier, criado em 2021, funciona atualmente como espaço dedicado a aulas, workshops, produção e materiais para ceramistas.
Desta vez, cada participante poderá transformar um cão, gato ou outro animal de estimação num retrato pintado num prato de cerâmica. Não é preciso saber desenhar e todos os materiais estão incluídos. A participação custa 35€ e as vagas são limitadas. Em outubro, Rosario tem já prevista outra formação no Café Gúria, também em Braga, embora a data dependa da programação do espaço.
Ter um atelier aberto ao público e dedicar-se exclusivamente à cerâmica continua nos planos, mas ainda sem uma data definida. “É algo de que gostaria, mas sei que é muito trabalho e é preciso dinheiro e investimento.”
Carregue na galeria para espreitar o trabalho da artista.








