Família

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Tutor e médico veterinário: por uma relação transparente e de confiança

Neste Dia do Médico Veterinário, o Bastonário Pedro Fabrica escreve um artigo de opinião exclusivo para os leitores da PiT.

Pedro Fabrica, Bastonário.

Este 4 de outubro celebra-se o Dia Mundial do Animal e também o Dia do Médico Veterinário. É uma data de afetos, de fotografias partilhadas e de boas intenções. Mas é também uma boa ocasião para olhar para aquilo que, no dia a dia, sustenta a saúde e o bem-estar de cada animal de companhia: uma relação a três.

De um lado, o médico veterinário, com o seu conhecimento e a sua responsabilidade clínica. Do outro, o detentor, que decide, cuida e assume os encargos. No centro, o animal, que não fala por si e depende inteiramente de que os outros dois se entendam. É desta relação triangular que depende, em larga medida, a qualidade dos cuidados que cada animal recebe.

A ciência como base, a família como contexto

A medicina veterinária assenta numa abordagem biomédica rigorosa. O exame clínico, o diagnóstico, os meios complementares, a terapêutica e o acompanhamento seguem critérios científicos e deontológicos. Esta é a base, e não é negociável.

Mas a clínica não se faz no vácuo. O mesmo diagnóstico pode pedir abordagens diferentes consoante a vida que o animal leva. Um cão que é companhia de uma pessoa idosa que vive sozinha, um gato que cresceu com as crianças da casa ou um animal de trabalho têm papéis distintos nas suas famílias. Esse papel influencia as expectativas, a disponibilidade para tratamentos prolongados e a forma como se vivem as decisões mais difíceis.

Quando o médico veterinário conhece esse contexto, a sua intervenção não perde rigor. Ganha eficácia. Consegue propor planos realistas, antecipar dificuldades de adesão e acompanhar a família, e não apenas o paciente.

A responsabilidade começa antes da adoção

Ter um animal é um compromisso que se estende por dez, quinze ou mais anos. E esse compromisso deve ser pensado antes de o animal chegar a casa, e não apenas depois.

Antes de adotar ou adquirir um animal, vale a pena responder com honestidade a algumas perguntas:

  • Tenho tempo, espaço e estabilidade para cuidar dele ao longo de toda a sua vida?
  • Conheço as necessidades específicas da espécie e da raça, incluindo as doenças mais frequentes?
  • Estou preparado para os custos regulares, como vacinação, desparasitação, identificação eletrónica, esterilização e alimentação adequada?
  • E para os imprevistos, como uma doença crónica, uma cirurgia urgente ou os cuidados da idade avançada?

Planear pode passar por criar uma reserva financeira, ponderar um seguro de saúde animal ou falar com um médico veterinário antes de tomar a decisão. Um detentor informado é o primeiro garante do bem-estar do seu animal.

O custo real de cuidar

Um centro de atendimento médico-veterinário é, em muitos aspetos, uma pequena unidade de saúde. Tem equipamento de diagnóstico e imagiologia, laboratório, bloco operatório, anestesia monitorizada, internamento e fármacos. Tem equipas qualificadas de médicos veterinários, enfermeiros e auxiliares, muitas vezes com atendimento fora de horas. Tem ainda licenciamento, formação contínua, seguros e manutenção.

Os custos de funcionamento são, por isso, comparáveis aos da medicina humana. A diferença está em quem paga. Na saúde humana, grande parte da despesa é suportada pelo Estado, através do Serviço Nacional de Saúde, e o utente raramente vê o custo real de uma análise, de uma TAC ou de uma cirurgia. Na saúde animal, não existe essa subsidiação: o valor pago pelo detentor reflete o custo efetivo do serviço.

Perceber isto ajuda a desfazer um equívoco frequente. O preço de um ato médico-veterinário não é caro por comparação com a medicina humana. É apenas visível, por inteiro.

Vocação do veterinário não é voluntariado

Ninguém escolhe ser médico veterinário por acaso. É preciso gostar da profissão e gostar dos animais. É esse gosto que sustenta as noites de urgência, as cirurgias difíceis e as conversas mais duras com as famílias.

“Vocação não é voluntariado”

Mas a vocação não anula a profissão. Ser médico veterinário é exercer uma atividade exigente, que pede anos de formação, atualização permanente e uma responsabilidade clínica, ética e legal. Como qualquer profissional de saúde, o médico veterinário tem direito a uma remuneração justa, ao respeito pelo seu trabalho e à valorização do seu papel.

Esperar que o amor aos animais compense condições de trabalho desgastantes ou honorários desajustados é um caminho que leva ao esgotamento dos profissionais, e é no fim o animal quem mais perde.

Comunicar para decidir em conjunto com o veterinário

Há uma situação que todos os médicos veterinários conhecem. O diagnóstico está feito, o plano terapêutico indicado está definido, e o detentor recusa. Na maior parte das vezes, a razão é financeira.

Nestes momentos, a comunicação é decisiva. Cabe ao médico veterinário explicar com clareza o que está em causa, o prognóstico, os benefícios e os riscos de cada opção. Cabe-lhe também apresentar o orçamento com transparência e, sempre que possível, alternativas: fasear exames, priorizar intervenções, ajustar o plano sem comprometer o bem-estar do animal.

Do outro lado, pede-se ao detentor que esteja aberto a procurar entendimentos. Que faça perguntas, que partilhe as suas limitações sem receio e que confie que o médico veterinário não está a “vender” um tratamento, mas a recomendar o que considera melhor. Uma recusa silenciosa ou uma desconfiança de partida fecham a porta a soluções que muitas vezes existem.

Quando o diálogo funciona, mesmo as decisões mais difíceis, incluindo a eutanásia, são tomadas com respeito mútuo e no interesse do animal.

Todos os animais, Uma Só Saúde

Quando falamos de animais, não falamos apenas dos que partilham a nossa casa. Falamos também dos animais de produção e dos animais selvagens. Em todos estes contextos, o papel do médico veterinário é o mesmo: assegurar os melhores cuidados, para um elevado nível de saúde e bem-estar animal.

Nos animais de produção, que alimentam milhões de pessoas, o médico veterinário acompanha toda a cadeia. Previne e trata a doença nas explorações, zela pelo bem-estar durante a criação, o transporte e o abate, e garante no fim que os alimentos de origem animal são seguros para consumo. Também aqui existe uma relação de confiança, entre o médico veterinário, o produtor e os animais, da qual depende a saúde de todos nós.

Nos animais selvagens, o médico veterinário é vigilante e interveniente. Monitoriza doenças, recupera animais feridos, apoia programas de conservação e ajuda a preservar a biodiversidade, um recurso escasso do planeta que depende da variedade das espécies que o habitam.

E a profissão vai ainda mais longe. O médico veterinário municipal, o médico veterinário oficial, quem se dedica à investigação e à docência ou quem trabalha na indústria farmacêutica contribuem, cada um à sua maneira, para o mesmo fim. O médico veterinário é um dos principais alicerces na defesa de Uma Só Saúde: a saúde dos animais, das pessoas e do ambiente.

A confiança no veterinário como compromisso

Nenhum dos vértices do triângulo se sustenta sozinho. O conhecimento do médico veterinário precisa da colaboração do detentor. O empenho do detentor precisa da orientação do médico veterinário. E o animal precisa de ambos.

No final do dia, uma relação de confiança, bem estabelecida entre médico veterinário, detentor e animal, é o melhor compromisso para garantir a melhor saúde. Neste Dia do Animal, fica o convite: que cada detentor/produtor escolha o seu médico veterinário como parceiro, e que cada consulta seja um passo nessa relação de confiança.

Neste dia, celebramos os animais e os médicos veterinários.

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