Família

Yuki e Gold eram cães problemáticos que ninguém queria. Hoje ajudam a salvar outros

Ana e Henrique adotaram dois cães adultos contra todos os preconceitos. O seu exemplo é uma inspiração para milhares de pessoas.
Aprender a serem felizes.

Ana sempre viveu com animais. Desde que se lembra que são uma parte muito importante da sua vida. “A minha primeira palavra foi ‘bicho’. Estava destinado”, conta com uma gargalhada bem disposta. Já o marido, Henrique, nunca tinha convivido muito com animais e nunca tinha tido um cão na sua vida. Mas agora também já não se imagina sem eles.

Ana e Henrique são naturais, respetivamente, de Fátima e Torres Novas, mas foram estudar Engenharia em Lisboa e acabaram por ficar a viver na capital. São eles os humanos por detrás da página @Yuki.and.Gold, um projeto que pretende ajudar a desmistificar a adoção de cães adultos.

Mas quem são o Yuki e a Gold e como é que entraram na vida deste casal? “Na verdade, foi tudo muito orgânico, não foi nada premeditado. Nunca tinha pensado em adotar um animal adulto – não que não quisesse, só não tinha mesmo pensado nessa hipótese em específico”, explica Ana.

“Nós tínhamos um projeto de fotografia amadora, e por vezes, no âmbito do voluntariado que fazíamos em associações da causa animal, íamos lá conhecer e fotografar os animais e ajudávamos na divulgação dos mesmos para adoção. Um canil cheio de animais que nunca são adotados sempre foi uma ideia que me afligiu muito e nós, sendo estudantes na altura, a viver em quartos alugados e com orçamento de estudantes, a melhor coisa que podíamos fazer era mesmo ajudar a divulgar os animais”, sublinha.

Um dia, foram conhecer uma associação na zona de Fátima e os primeiros cães que viram foram o Yuki e a Gold. “Eram adultos, já com cerca de 3 ou 4 anos na altura em que os conhecemos, e estavam naquela zona dos cães grandes que não recebiam visitas porque dificilmente seriam adotados”.

“Nesse dia nem convivemos diretamente com eles, apenas os vimos pelas grades, e estivemos a tirar fotos a outros 50 ou 60 cães, mas qualquer coisa no olhar do Yuki me marcou e eu não consegui tirá-lo da cabeça”, conta Ana.

Quando tem de ser… tem muita força

Por vezes, a ideia passa. Mas não foi o caso. “Cerca de três meses depois, ainda não tinha tirado o cão da cabeça. Contactei a associação e perguntei por ele, se ainda não tinha sido adotado, qual era a história dele etc. Pelo que me disseram, ele dificilmente sairia algum dia da associação, pois apesar de ter sempre muitos interessados, por ter um ar mais ‘exótico’, só permitia a aproximação da voluntária que cuidava dele – e mesmo assim não se deixava escovar ou levar ao veterinário, por exemplo”.

“E pronto, pode parecer que não faz muito sentido, mas isso só me fez ter mais vontade de o ir conhecer. E marquei uma visita para o ir conhecer melhor”, diz Ana.

Quando o visitou e esteve com ele – e com as cadelas que viviam com ele –, durante cerca de duas a três horas, o Yuki não lhe ligou nenhuma. “Ainda me rosnou da única vez que lhe toquei”, recorda.

Mas aquele tempo foi muito útil para também conhecer melhor a Gold. “Comecei a visita para conhecer um cão que não me saía da cabeça e acabei com dois cães que me marcaram muito”.

Depois disso, Ana começou a visitá-los sempre que ia de fim de semana a casa. E durante mais de um ano assim foi. Quando soube que a associação iria fechar e que todos os animais teriam de ser realojados, não teve muitas dúvidas: tinha de adotar o Yuki e a Gold. “O Henrique embarcou nesta loucura comigo e atirou-se de cabeça, mesmo nunca tendo tido um cão. Começou logo com dois animais adultos, com problemas comportamentais, com 40kg e 30kg respetivamente”.

Ainda por cima, a Gold tinha pânico de homens, pelo que de início Henrique nem lhe conseguia tocar. “Se isto não é amor, nem sei o que será”, considera Ana perante a resiliência do marido na conquista dos dois patudos que são hoje os orgulhosos cães desta família.

Uma jornada de aprendizagem

Se há adoções que são por impulso, este não decididamente foi o caso. Foi muito pensada e ponderada. E feita com todo o amor. ”A nossa jornada de adoção começou muito antes do dia em que os adotámos. Eles estão connosco há três anos, mas a nossa história conjunta já tem mais de quatro anos e meio”, afirma Ana, sublinhando que este caminho tem sido de uma “aprendizagem tremenda”.

“Crescemos todos muito uns com os outros. Nem eles são os mesmos cães que vimos naquela primeira visita, nem nós somos as mesmas pessoas que eles conheceram naquele dia”.

E o Yuki, três anos depois, já revela a transformação operada pelo amor. “É um cão independente, mas super afetuoso, com uma ligação connosco que parece difícil de explicar”, conta Ana. “Tornou-se num cão equilibrado, calmo, que continua a preferir evitar contacto com estranhos ou outros cães, mas que é super tolerante”.

Por seu lado, a Gold já ultrapassou tantos medos e tantos traumas que para o casal é “um orgulho imenso” vê-la abraçar as pessoas que ela adora, ou brincar com cães no parque, “sabendo que ela veio com medo da própria sombra, que demorou mais de um ano a perder medo de cães desconhecidos, que tinha pavor de pessoas, principalmente homens, e hoje quer ser amiga de toda a gente”.

“É muito gratificante vê-los calmos e felizes, a serem os cães que sempre estiveram destinados a ser”.

Ana e Henrique também cresceram. “Aprendemos muito sobre eles e sobre nós com esta jornada, aprendemos a ter calma e paciência, aprendemos a moderar expectativas, a aproveitar os momentos todos com mais naturalidade e ingenuidade”.

Conquistas. A beleza de dormir de barriga para cima

“Muitos tutores orgulham-se imenso dos seus cães que sabem mais de 100 truques, ou que ganham concursos, ou porque têm um pedigree exemplar. Nós orgulhamo-nos da primeira vez que a Gold dormiu profundamente de barriga para cima, porque queria dizer que ela confiava em nós plenamente. Ou de o Yuki se portar exemplarmente em todos os exames veterinários, mesmo sabendo que ele não gosta de ser manipulado por desconhecidos. Orgulhamo-nos imenso do dia em que eles tiveram coragem de molhar as patas no mar e de quando aprenderam a gostar de andar de carro”, afirma Ana, emocionada.

Ana considera que aprenderam com eles, sobretudo, “a ver coisas bonitas nestes atos banais do dia a dia que quase podiam passar despercebidos, não fossem elas o reflexo de mais um passo que estes dois seres deram para se tornarem os cães felizes, calmos e completos que são hoje. Essa vida nunca lhes devia ter sido negada, mas foi. Devido aos maus-tratos e do abandono, eles viveram privados de serem quem podem agora ser”. Mas, felizmente, o pior já passou.

Belos passeios em família.

Partilhar esta história com os outros

Perante este desenrolar tão feliz, Ana e Henrique quiseram partilhar a sua história e mostrar, com o exemplo deles, que se vai sempre a tempo de devolver o brilho e a confiança a um cão maltratado e com todos os motivos do mundo para recear os humanos.

Acima de tudo, o casal quer mostrar que adotar um cão adulto pode ser uma decisão muito recompensadora – para ambos os lados. “Quando decidimos avançar com a adoção dos dois, toda a gente – nas nossas famílias e grupos de amigos – achou que estávamos malucos. Ouvimos coisas como: ‘cães grandes são perigosos, eles vão-vos atacar’; ‘cães adultos não se adaptam a viver em apartamentos. Eles vão destruir a casa toda’; ou ‘não vão conseguir arrendar casa com dois cães grandes’”.

Mas, “entre muitas outras coisas, e para nossa surpresa, nenhum deles alguma vez destruiu algo de valor em casa. Os dois estragos em três anos foram um comando de televisão roído e um pirex mandado ao chão”.

“Eles aprenderam a fazer as necessidades na rua logo no primeiro dia e sempre tiveram imensa paciência de esperar por nós quando ficavam sozinhos. E fomo-nos apercebendo que ainda existem muitos mitos relativamente à adoção de animais adultos. As pessoas acham que é super difícil e complicado, mas não tem de ser”. Ana e Henrique decidiram provar isso mesmo.

“Queríamos mostrar um exemplo de dois cães que eram rotulados como ‘não adotáveis’ por causa do porte e dos traumas e problemas de comportamento, mas que afinal eram super adaptáveis. Afinal correu tudo bem”, diz Ana.

Yuki e Gold estão a salvar mais animais

Criaram então a conta do Yuki e da Gold no Instagram, que conta já com mais de 5.600 seguidores. E o feedback não poderia ser melhor.

“Várias pessoas nos abordam com dúvidas relativamente a este tema e já algumas pessoas no contactaram, pois acabaram por tomar a decisão de adotar cães adultos depois de conhecerem a nossa história. E isso é a coisa mais bonita que nos podem dizer: que a história do Yuki e da Gold continua a salvar mais animais, que inspira as pessoas a verem os cães no geral com outros olhos”, afirma Ana.

Da criação da conta – onde falam sobre os desafios mas também os aspetos “inesperadamente simples” de se adotar um animal adulto – ao salto para outras aventuras foi um ápice. Já fizeram palestras em eventos focados nos animais e participaram nas duas últimas edições do Pet Festival, na FIL, onde fizeram várias apresentações sobre o tema.

Nem o melhor bife os desviaria de casa

“Quando somos convidados a fazer alguma apresentação, normalmente dividimos em duas partes. Numa primeira parte falamos sobre os mitos e verdades em torno da adoção de animais adultos e, de um modo geral, tentamos abordar as dúvidas mais comuns que as pessoas nos costumam apresentar, bem como os mitos mais frequentes”, explica Ana.

Um mito com que ainda se deparam frequentemente é o de que um animal adulto não cria uma ligação tão forte com a família como um cachorro. “É um daqueles preconceitos que me magoa um pouco ouvir e gostava que toda a gente tivesse a oportunidade de experienciar a ligação que é possível criar com estes animais que ninguém quer”.

“Neste caso, dou sempre o exemplo da nossa outra cadela, a Fi. Já tem 14 anos, sempre viveu comigo e com a minha família desde cachorra. E ela adora-nos, sem dúvida, mas se alguém lhe oferecer mimo e comida, ela é uma autêntica ‘Maria vai com todos’. Já o Yuki e a Gold nem com o melhor bife iriam com um estranho para casa. Um cão adotado em adulto é um cão que sabe que a vida não é sempre só rosas, já passou por muito e vive agradecido por cada dia que passa connosco”.

A segunda parte das palestras normalmente é uma apresentação da história do Yuki e da Gold. As peripécias, os medos, as surpresas. “Mostrar que uma história feliz pode ter altos e baixos, não tem de ser simples e linear. Uma história feliz pode começar com dois estudantes a adotar dois cães gigantes que nunca entraram dentro de uma casa”.

Existe um cão perfeito à sua espera

E que diriam a quem esteja a ponderar adotar um animal adulto ou sénior? “O principal conselho que posso dar é que existe um cão perfeito para todas as pessoas num canil, à espera de ser adotado. É só uma questão de procurar. E que mais importante do que procurar uma fotografia bonita, é conhecer os animais, deixar fazer aquele clique, porque quando se começa uma adoção baseada numa ligação, tudo fica mais fácil e mais orgânico. Adotar um animal adulto é ter a oportunidade única de conhecer aquele animal que encaixa que nem uma luva na nossa vida”, resume Ana.

“Muitas pessoas acham que os cães adultos são difíceis. Não sabem o que esperar deles e acham que são imprevisíveis. Ou, como querem um animal que goste de crianças, um animal que goste de fazer desporto ou que tenha outra particularidade qualquer, acham que é melhor procurar um cachorro”.

Mas é precisamente ao contrário, diz Ana. ”Um animal adulto tem a personalidade formada, é previsível. Isso dá-nos a oportunidade de adotar um animal com as características certas para a nossa família, sem surpresas”.

Percorra a galeria para conhecer melhor esta família.

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