Percorreu 31 países africanos sem apanhar um avião para cumprir uma promessa à sua cadela

O biólogo e escritor Roberto Sastre atravessou 31 países africanos com as suas companheiras de quatro patas, Cocaí e Chai.

Há mais de uma década que Roberto Sastre viaja pelo mundo acompanhado pelas suas cadelas, Cocaí e Chai. Mas, desta vez, a aventura ganhou uma dimensão ainda mais extraordinária: durante quase três anos, o viajante espanhol percorreu África sem apanhar um único avião, cumprindo uma promessa feita à sua cadela mais velha.

A viagem terminou no Egito, depois de ter atravessado o Mar Vermelho num veleiro durante 21 dias e alcançado as emblemáticas pirâmides de Gizé.

Pelo caminho, passou por 31 países africanos, ligando pela primeira vez as duas grandes rotas do continente — de Tânger à Cidade do Cabo e da Cidade do Cabo ao Cairo — sem veículo próprio. Durante a viagem, visitou também abrigos de animais em oito países, divulgando o seu trabalho através da comunidade digital Viajeros Perrunos e incentivando doações para organizações que apoiam animais em condições particularmente difíceis.

“Foi uma viagem que não teria sido possível sem os camionistas que nos deram boleia, os locais que nos abriram as portas de casa e sem a minha família e comunidade, que me apoiaram à distância comprando os meus postais e livros”, conta em entrevista ao jornal espanhol La Vanguardia.

Uma promessa feita nos olhos de uma cadela

Quando iniciou esta aventura, em outubro de 2023, Roberto tinha um objetivo muito claro: evitar qualquer voo. “Para mim era o mais importante. Evitar o sofrimento delas ou algum susto. Havia uma promessa em jogo. Quando regressámos das Américas para Espanha, no final de 2017, prometi à Cocaí que aquela seria a última vez que voaria. Haverá quem ache isto uma tontice, mas nesse dia olhei-a nos olhos e selámos esse juramento.”

Desde então, manteve a palavra. Primeiro numa viagem terrestre entre Espanha e Índia e agora ao longo de toda a travessia africana. “A minha ideia desde o início era chegar de ferry a Marrocos e depois fazer tudo por terra ou, se necessário, por mar. E assim foi.”

O maior desafio: evitar o avião entre a Etiópia e o Egito

A fase mais delicada surgiu quando chegou à Etiópia. Para continuar rumo ao norte, teria de atravessar o Sudão, um país em guerra desde abril de 2023 e que, além dos riscos de segurança, não concede vistos. “Foi a fase mais crítica da viagem para evitar um avião e, pela primeira vez, pensei que talvez falhasse à promessa que tinha feito à Cocaí há mais de oito anos.”

Foi então que surgiu um plano alternativo: procurar uma rota marítima através do Djibuti. Depois de duas semanas a viver junto ao porto de pesca local, a oportunidade apareceu de forma inesperada.

“Finalmente, um austríaco da minha idade chamado Christoph aceitou levar-nos até ao Egito no seu veleiro de 10 metros. Não conseguia acreditar. Estávamos preparados para 2.500 quilómetros de navegação.”

Vinte e um dias no Mar Vermelho

A travessia acabou por durar muito mais do que o previsto: 21 dias em pleno Mar Vermelho. A maior preocupação de Roberto era garantir o bem-estar das cadelas durante a viagem. “Era a minha maior preocupação, sobretudo a questão das necessidades. Procurei um pedaço de relva artificial que foi fundamental nesta travessia.”

Apesar dos receios iniciais, a adaptação foi surpreendente. “Quanto aos enjoos, a Chai vomitou no primeiro dia — embora não tanto como eu —, mas rapidamente os nossos corpos se habituaram ao mar. De resto, adaptaram-se desde o primeiro minuto.”

Durante a viagem, Cocaí e Chai continuaram a comer normalmente, passeavam pelo convés quando o barco ancorava e observavam com curiosidade as paisagens marítimas.

 
 
 
 
 
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“Não existem cadelas mais corajosas”

Os 21 dias em alto-mar deixaram marcas profundas. “Cruzar o Mar Vermelho com a Cocaí e a Chai foi uma experiência incrível. Passámos dias sem ver terra, ligados apenas ao mar, ao sol, à lua e às estrelas. Senti que éramos os únicos humanos — e cadelas — do planeta.”

O tempo passado no veleiro serviu também para refletir e aprender. “Aprendi imenso sobre navegação e acho que também fui muito útil ao Christoph: içando velas, cozinhando e fazendo turnos noturnos para que o capitão pudesse descansar.”

Mas os maiores elogios vão para as suas companheiras de viagem. “Para grumetes especiais, elas. As minhas duas fiéis escudeiras. Não tenho palavras para elas. Não existem cadelas mais corajosas, estoicas e boas.”

O momento mais emocionante: chegar às pirâmides de Gizé

Depois de milhares de quilómetros percorridos, houve um momento que se destacou entre todos. “Chegar às pirâmides de Gizé foi demasiado especial. Não apenas pela magia e pela história que representam, mas pela enorme carga emocional.”

Para Roberto, alcançar aquele local simbolizou muito mais do que cumprir um sonho turístico. “Chegar até elas foi um ato de perseverança, força e até fé, porque, apesar de maravilhoso, este foi um percurso de tudo menos fácil.”

O que os cães de África lhe ensinaram

Ao longo do percurso, Roberto teve contacto com inúmeros cães de vida livre em diferentes países africanos, uma experiência que lhe trouxe novas perspetivas sobre adaptação e sobrevivência.

“Os cães de rua são incríveis e aprendi muito observando os seus comportamentos e vidas em diferentes sociedades.”

Reconhece, contudo, que a realidade é dura. “Em muitos países africanos, infelizmente, têm uma vida particularmente difícil. As pessoas enfrentam muitos problemas e os cães acabam por ficar em quinto plano.”

Ainda assim, destaca a capacidade destes animais para encontrarem formas de sobreviver. “Sabem sempre encontrar aquelas pessoas que os ajudam e que eu chamo de anjos dos cães.”

Como seria esta história contada por Cocaí e Chai?

Questionado sobre o que as suas cadelas diriam se pudessem contar a aventura, Roberto imagina um relato repleto de paisagens e encontros inesquecíveis. “Imagino-as de regresso a Madrid a contar as suas ‘perripécias’ aos amigos do parque.”

Na versão delas, haveria histórias sobre desertos infinitos, mangais, praias selvagens, selvas, montanhas, savanas e encontros com camelos, chimpanzés, elefantes, girafas, zebras, búfalos, babuínos e hienas.

Mas também sobre pessoas. “Sem dúvida que falariam de toda a gente que conhecemos e dos bons amigos que fizemos pelo caminho. E dos cães que conheceram durante a viagem.”

 
 
 
 
 
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O regresso continua por resolver

Apesar de já se encontrar no Egito, Roberto sabe que o desafio ainda não terminou. “Talvez faltem apenas dois meses para regressar. Ou talvez mais. ‘Tão perto e tão longe’ é a expressão que melhor define onde estamos neste momento.”

O objetivo mantém-se inalterado: voltar a Espanha sem recorrer ao avião. “Não quero fazê-las sofrer nem quebrar a minha promessa. A Chai, por exemplo, nunca voou desde que a adotei na Índia.”

Entre as opções em estudo estão uma passagem terrestre pela Líbia ou encontrar um cargueiro que aceite transportá-los até um porto europeu. Caso ambas falhem, poderá ainda seguir pela Jordânia e atravessar o Médio Oriente até à Turquia.

O maior ensinamento de África

Ao olhar para trás, Roberto acredita que a maior aprendizagem veio das pessoas que encontrou ao longo do caminho. “Os africanos têm muito para ensinar e o resto do mundo muito para aprender.”

Destaca especialmente a forma como encaram a vida e as adversidades. “Vivemos obcecados com a produtividade e com a necessidade de fazer sempre mais. Em África aprendi outra perspetiva.”

Uma visão resumida numa expressão conhecida em todo o mundo. “‘Hakuna Matata’, a famosa frase de O Rei Leão, significa em suaíli ‘não há problema’ ou ‘está tudo bem’, mas é muito mais do que isso. É a elasticidade do tempo africano. É não se preocupar com aquilo que escapa ao nosso controlo.”

E recorda uma frase que ouviu no norte do Uganda e que hoje guarda com orgulho. “Não és como eles, és como nós.”

Carregue na galeria para conhecer Roberto e a sua família.

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