Saúde

Amarrado, sem comida e sem água. Julinho, o cão que foi ao inferno e voltou

O patudo de Torres Novas foi resgatado de uma casota onde estava acorrentado. Mais uns dias e teria morrido.
A casota onde vivia.

Há problemas de saúde nos nossos animais que não conseguimos evitar. Por melhor que os tratemos, por mais cuidados que lhes sejam dados, há fatores genéticos e até mesmo ambientais que podem mudar tudo. Mas há também os problemas de saúde completamente evitáveis, que são fruto da pior forma de se tratar um cão. Foi o que aconteceu a Julinho.

Julinho é um cão como muitos outros pelo nosso país fora. Acorrentado até morrer, apesar de isso ser considerado crime de maus tratos. No seu caso, acorrentado e sem ter o que comer ou beber. Com a sua saúde a degradar-se até chegar a hora de morrer.

A associação APA Torres Novas, que o resgatou no limite das suas forças, contou toda a história numa publicação feita este domingo, 25 de setembro, na sua página de Facebook.

“Quando pensamos que já vimos de tudo, eis que algo novo nos surge. Por mais que vejamos estas imagens, continuamos em choque. Já nem se trata ‘apenas’ de um animal desnutrido, abandonado, com doenças ou em risco de vida. Trata-se, antes disso, da crueldade e da maldade humana”, começa por referir.

A APA Torres Novas relata que no passado dia 19 de setembro recebeu uma chamada de uma voluntária da associação a chorar em desespero com a situação de um animal que tinha encontrado e que estava destinado a morrer.

“A nossa voluntária conhece o local onde o animal esteve acorrentado e fez-nos um enquadramento. O Julinho [nome que lhe foi agora dado] tem cerca de oito anos e estava acorrentado numa casota de madeira com menos de um metro quadrado. Não tinha como se voltar lá dentro. A casota nem sequer era retangular ou quadrada, oferecendo maior aragem ou conforto; era em diagonal, tornando-se claustrofóbica”.

O pior disto tudo, acrescenta a associação, é que “a casota estava presa ao muro de um antigo galinheiro, que tem uma parte coberta e uma parte ao ar livre completamente vedada”. “Ou seja, não havia qualquer necessidade de o Julinho estar amarrado e confinado à claustrofóbica casota quando tinha um espaço vedado mesmo ao lado”.

Condenado a uma morte lenta

Em tom de reflexão, a APA Torres Novas questiona: “a maldade humana condenou o Julinho a esta prisão, a que nem os mais vis criminosos são remetidos, apenas porque caiu nas mãos erradas. Aparentemente pessoas sem dificuldades económicas e que todos os dias viam o cão neste estado. Perguntamo-nos: porque é que as pessoas fazem isto? Que não gostem de animais, respeitamos; que não os queiram, compreendemos; mas qual é o prazer sádico de pegar num ser indefeso, amarrá-lo nestas condições e condená-lo a morrer aos poucos?”

O Julinho estava preso nas traseiras de uma habitação, num terreno onde ninguém vai além dos donos. Ou seja, não fosse um acaso do destino, e o Julinho morria à fome e à sede sem ninguém saber, acusa a associação. “Quem o condenou a esta morte lenta fazia-o sem obstáculos porque sabia que ninguém ia ver. Enganaram-se”.

“Quando dizemos que o Julinho ia morrer lentamente sabemos o que dizemos. E não demoraria muito tempo. O Julinho não tinha comida nem água junto dele. Nem água! Como é possível? Não tinha sequer como procurar matar a fome e a sede. Imaginamos o quanto sofreu, por exemplo, durante este verão em que houve uma vaga de calor insuportável”.

“Felizmente o destino do Julinho cruzou-se com a nossa voluntária, que o resgatou sem pensar duas vezes. ‘Assim que o vi comecei a chorar. Peguei nele e nunca vou esquecer a sensação de não sentir carne nenhuma, era como pegar um bloco de cimento. O corpo dele era um retângulo duro’, contou-nos. Assim que chegou a porto seguro, comeu uma mão cheia de ração e vomitou. Mas a fome era tanta que o instinto foi tentar comer o vomitado. Isso mesmo que leram: o Julinho estava em tal estado de agonia que tentou comer o que tinha acabado de vomitar. Dá para acreditar?!”.

Esperar poderia ser demasiado tarde

À PiT, essa mesma voluntária que resgatou o Julinho – e que pediu para não ser identificada – conta que contactou a veterinária municipal e o Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente (SEPNA – braço da Guarda Nacional Republicana responsável por assuntos relacionados, nomeadamente, com animais de companhia) nessa mesma segunda-feira. Acontece que a deslocação das autoridades só poderia ser feita na quarta-feira, dia 21. “Esperar dois dias poderia ser demasiado tarde. Por isso, não hesitei e tirei-o dali”, diz-nos.

“Quando o vi, comecei imediatamente a chorar e fiquei transtornada. Não podia esperar 48 horas. Resgatei-o e levei-o ao veterinário, onde ficou três noites. Está agora numa querida família de acolhimento temporário (FAT), onde terá a vida que merece”, relata a voluntária à PiT. Uma FAT que, perante o que viu, apenas disse: “como é que que posso dizer que não?”.

O diagnóstico é o que se podia esperar: está cego de um olho, provavelmente devido a alguma pancada, e tem cataratas no outro; tem febre da carraça, pois tinha o corpo coberto delas; tem leishmaniose e terá de tomar medicação para o resto da vida; tem anemia devido à desnutrição; tem marcas no corpo que nunca irão sarar. O estado frágil em que se encontra levará a longos meses de recuperação.

Apesar de todo este quadro, “o Julinho apresenta melhorias visíveis”. “Tinha dificuldade em manter-se de pé e agora já consegue. Mas ainda está num estado muito frágil”, sublinha a voluntária.

A desejada família vai chegar

E depois? Depois, já tem apalavrada “uma família de confiança”, garante a voluntária. O que é “um achado”, dado que um animal com tantos problemas de saúde e já adulto poderia nunca vir a ter um lar. Mas vai tê-lo.

Agora, a associação pede ajuda nos custos veterinários, dado que, inicialmente, as despesas de tratamento do Julinho rondarão os 500€ (veterinário + medicação). “E temos de contar com a medicação para a leishmaniose que o Julinho tomará para o resto da vida e com a possibilidade de ter de fazer um tratamento também contra a leishmaniose que é caro. De coração, a quem puder ajudar, o nosso muito obrigado”, escreve a associação.

Para quem possa ajudar, pode fazê-lo através do IBAN (PT50 0035 0819 0003 9489 330 16) ou por MB Way para o número 913533420.

“E fiquem atentos. Em cada esquina pode haver um Julinho. Há um longo caminho a percorrer em Portugal. De sensibilização, de mudança de mentalidades, mas também de intervenção dos cidadãos. Se medos!”, remata a APA Torres Novas. Porque um olhar mais atento e a denúncia e atuação na hora certa podem salvar uma vida.

Percorra a galeria para conhecer melhor o Julinho, que deixou para trás uma vida de inferno. As imagens são potencialmente chocantes.

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