Saúde

Casal de gatos de Sintra perdeu o cuidador, deixou de comer e acabou por morrer

Os gatos podem morrer de "tristeza", por via da falência dos órgãos. "Eles desistem de viver", diz veterinária Joana Valente à PiT.
Depressão? Procure estratégias.

Diz-se que os gatos são muito independentes e que não têm verdadeiramente amor pelos donos. Que o carinho e aproximação é por mero interesse – para serem alimentados e apaparicados quando quiserem. Mas não é assim que as coisas se passam. Os gatos são mais apegados do que aquilo que deixam transparecer. E podem morrer devido ao desgosto e às saudades.

Podem mesmo. Um gato entregue pelo dono numa associação, ou abandonado na rua, rapidamente pode entrar num estado de profunda tristeza e depressão. Deixa de comer até que morre. Assim mesmo. Com esta crueza.

A causa da morte não é diretamente atribuível à saudade, mas, quando nenhuma tentativa para inverter a situação funciona, os órgãos acabam por falhar – o que se revela fatal. “Pessoalmente, não acho que os gatos desistem de viver”, diz à PiT a médica veterinária Joana Valente. “Têm, isso sim, uma maior dificuldade em adaptar-se a alterações de rotina que, a curto prazo, lhes podem provocar problemas metabólicos que levam a falha orgânica”, explica a médica do Hospital Alma Veterinária.

O exemplo mais recente de tristeza profunda é o de dois gatos que foram entregues ao cuidado da Associação EntreGatos, cujo abrigo se situa em Sintra. O seu cuidador tinha perdido a casa e viviam os três no carro, o que estava a tornar-se insustentável. A associação acolheu-os, mas alertou para os riscos de uma depressão.

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O casalinho acolhido pela EntreGatos.

O cuidador aceitou o risco, porque não tinha outra solução. Mas os gatos ressentiram-se e, simplesmente, deixaram de comer. Nem aceitavam comida pela seringa. Foram internados e o cuidador foi informado. Visitou-os e eles reagiram bem. Começaram logo a comer. Foi uma alegria e a esperança para aquele casalinho renasceu. Só que a situação viria a repetir-se e a preocupação voltou.

Quando as coisas pareciam não ter solução, a EntreGatos viu uma luz ao fundo do túnel para estes amigos de quatro patas: o cuidador telefonou, dizendo dizer que uma pessoa amiga ficaria com eles. Ficou tudo marcado para 3 de dezembro – mas o responsável pelos gatinhos não compareceu e não foi possível contactá-lo. E o pior aconteceu.

“Perdemos a batalha”

Os gatinhos regressaram à depressão profunda. Desistiram de viver. Primeiro, morreu ele. No dia seguinte ela. Aconteceu na semana passada. Quando o cuidador contactou, já era demasiado tarde. “Perdemos a batalha”, lamentou a associação.

Esta é uma história que se repete vezes sem conta nas associações e nos canis. Mas será possível fazer algo mais para inverter a situação? Às vezes é muito complicado.

Segundo Joana Valente, dois pilares essenciais para o bem-estar felino foram abalados neste caso. Um deles foi o da segurança. “Quando existe uma mudança na rotina, seja ela uma mudança de casa, chegada de um bebé, adoção de outro animal ou perda de tutor, este pilar fica comprometido”, sublinha. “Caso não existam estratégias para ajudar o gato, isso poderá levar a problemas graves de saúde, inclusive não raramente a morte”, alerta.

No caso em questão, “além do pilar da segurança, também outro dos cinco pilares foi comprometido: o da interação com o cuidador”, sublinha a médica responsável pelo Departamento de Medicina Felina – Alma Felina.

Percorra a galeria e veja alguns dos conselhos de Joana Valente para quando o seu felino vê abalado um pilar essencial do seu bem-estar.

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