Saúde

Leishmaniose canina quase duplica nos últimos 10 anos em Portugal

Maior risco está associado a cães com mais de dois anos, residentes em zonas mais interiores do país e que não usam repelentes.
Coleira repelente, sempre.

A leishmaniose canina não tem de ser um bicho de sete cabeças para o seu patudo. Se há uns anos era motivo para se ponderar a eutanásia do animal, hoje em dia essa hipótese já é afastada. Quando medicado, o cão pode ter pela frente muitos anos de vida — e com qualidade. No entanto, o melhor mesmo é estar atento e tomar precauções, pois é uma doença que se pode evitar grandemente com os devidos cuidados. Além disso, há preocupações de saúde pública que estão em causa, por isso o lema deve ser “não facilitar”.

Esta é uma doença causada por um parasita (Leishmania infantum) e que sem tratamento se revela fatal para o animal — pelo que é preciso estar alerta, ter conhecimentos sobre a doença, sintomas e formas de prevenir a infeção. E como é que um cão apanha leishmaniose? A” doença é transmitida pela picada da fêmea de um inseto chamado flebótomo, também conhecido como mosca-da-areia — mas que se assemelha muito ao mosquito. É, aliás, comum ouvir a expressão ‘picada do mosquito’ quando se fala de leishmaniose“, explica à PiT a médica veterinária Liliana Dias.

Uma vez que atinge grande parte de todo o território continental português, com índices significativos, a leishmaniose é considerada uma doença endémica no país. E, além disso, é uma zoonosedoença infeciosa naturalmente transmissível dos animais para os seres humanos).

“Sendo a leishmaniose uma zoonose, é crítico implementar medidas de prevenção da picada do flebótomo, no principal hospedeiro reservatório desta doença, o cão. Também é importante fazê-lo durante todo o ano, uma vez que, com o aumento das temperaturas, há também um aumento do período anual de atividade dos flebótomos”, alerta a MSD Animal Health. “Hoje detetam-se flebótomos mais cedo do que era habitual e podem manter-se ativos até dezembro. Mas o outono é a época de maior risco para a transmissão da leishmaniose porque a possibilidade de as fêmeas estarem infetadas com o parasita leishmania é maior”, sublinha a mesma fonte.

Atendendo a que os cães domésticos são os principais hospedeiros do parasita e que estão, naturalmente, em contacto próximo com as pessoas, a doença é uma preocupação de saúde pública, pelo que é necessário conhecer os números mais recentes de casos positivos – a chamada seroprevalência por Leishmania – no nosso país, até para se tomarem ações preventivas mais localizadas.

Leishmaniose cresceu em Portugal

Assim sendo, era necessário atualizar os dados do panorama em Portugal, já que o último estudo era de 2009. E foi o que fez uma equipa de investigadores do Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa, com o apoio da MSD Animal Health e da LETI Pharma.

Os investigadores desenvolveram o estudo ‘Seroprevalência e fatores de risco associados à infeção por leishmania em cães de Portugal’, entre janeiro e março de 2021, no qual foram recolhidos questionários e amostras de sangue a 1.860 cães de tutores particulares em Portugal Continental e utilizado um teste de aglutinação direta para calcular os níveis de anticorpos anti-leishmania.

E os resultados, agora divulgados, revelam que a seroprevalência da infeção por leishmania quase duplicou no país nos últimos 10 anos, passando de 6,3% em 2009 (ano do último inquérito epidemiológico nacional) para 12,5% em 2021.

Os principais fatores de risco identificados são: idade superior a dois anos; residir no interior do país; e não utilização de repelentes contra o flebótomo, o vetor da leishmaniose.

Portalegre, Castelo Branco e Guarda lideram casos de leishmaniose

Por repartição geográfica, o interior do país apresenta assim uma maior seroprevalência da infeção face ao litoral, com Portalegre (30,5%), Castelo Branco (29,9%) e Guarda (19,3)%) a revelarem os níveis mais elevados. Viana do Castelo (0%), Aveiro (1,2%) e Leiria (3,9%) são as cidades menos afetadas. Já o Norte do país revela uma seroprevalência inferior ao Sul (9,6% no Norte contra 17,2% no Algarve), conclui o estudo.

Apesar de o interior do país ser o mais afetado, nos distritos de Braga e Setúbal a prevalência de leishmaniose mais que triplicou e no distrito do Porto também quase triplicou, repetindo-se este cenário de aumento de prevalência em praticamente todo o território nacional.

Após o inquérito de 2009 foram introduzidas novas medidas profiláticas na Europa, como a vacinação. Ainda assim, este estudo mostra que os números cresceram, pelo que é preciso continuar a atuar com firmeza. “A chave para o controlo da leishmaniose canina e o seu impacto na saúde pública em áreas endémicas reside na implementação contínua de medidas profiláticas, através da utilização correta de repelentes/inseticidas e da vacinação, da deteção precoce e monitorização de cães infetados”, sublinham em comunicado os investigadores responsáveis pelo estudo.

Carregue na galeria para saber mais sobre a leishmaniose canina – e sobre como preveni-la.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA PiT