Saúde

Saúde mental junta comunidade veterinária para falar de ansiedade, depressão e burnout

“Temos de estar bem para cuidar bem”, diz à PiT a médica veterinária Diana Lavareda, mentora do evento agendado para dia 14 em Lisboa.
A gestão emocional é muito importante.

Sempre que os nossos animais têm um problema de saúde, todos sabemos a quem recorrer: ao médico veterinário. É ele quem cuida, quem tira as dores e quem ajuda a que muitas vidas se prolonguem. Mas… e quem cuida destes cuidadores? Onde fica a sua saúde mental?

Os números são assustadores. Quando se fala de esgotamentos, burnout, e mesmo suicídio, as taxas são muito elevadas na comunidade veterinária – em qualquer parte do planeta. Portugal não é exceção, sendo um dos países do mundo onde mais se sofre de stress nesta área profissional.

Os motivos para o desgaste são muitos: a incapacidade de salvar um animal, as acusações injustas de que são alvo por parte de tutores desesperados, as muitas horas de trabalho aliadas a remunerações baixas e a própria eutanásia. Tudo isto deixa um profissional “de rastos”. É por isso mesmo que faz falta falar mais sobre o assunto e encontrar plataformas permanentes de troca de ideias, desabafos e recomendações.

No Vet Mental Summit nada ficará por abordar

Foi a pensar nisto que a médica veterinária Diana Lavareda, que trabalha atualmente no Centro Veterinário de Alverca, decidiu avançar com um evento – o Vet Mental Summit – que pode ajudar a colocar muitas preocupações no centro do debate, em vez de ficarem fechadas em gavetas do pensamento que, subitamente, com um qualquer gatilho, se desarrumam por completo.

O Vet Mental Summit está marcado para 14 de junho – no auditório do Vip Executive Art’s Hotel, no Parque das Nações, em Lisboa – e será o primeiro congresso português dedicado à saúde mental da comunidade veterinária. À PiT, Diana Lavareda explica como decidiu avançar e colocar sobre rodas este evento. “O projeto surgiu no final do ano passado. Sempre tive uma grande sensibilidade para este tema, até porque no início de começar a trabalhar passei por situações que me levaram a certos níveis de ansiedade – e, claramente, se tivesse permanecido nesses locais de trabalho teria facilmente chegado a um estado de burnout”, diz.

Foi a sua própria abertura para o tema e a recetividade de outros veterinários que a levaram a querer alargar estas questões a uma audiência mais vasta na profissão. “Quando iniciei o meu projeto de Instagram “mom.wife.vet”, percebia que sempre que falava em temas relacionados com a saúde mental, havia inúmeros colegas de profissão que enviavam mensagens a desabafar sobre situações pelas quais estavam a passar. Achei que podia fazer alguma coisa para ajudar, algo que pudesse marcar a diferença na nossa comunidade veterinária, algo que ainda não tivesse sido criado em Portugal”, conta Diana à PiT.


E assim fez. Em janeiro deste ano, o evento estava criado e todo delineado em papel. “Felizmente tive o diretor clínico do meu local de trabalho, Nuno Santos, a apoiar todo o processo de criação deste evento, o que foi uma grande ajuda a tornar o Vet Mental Summit possível”, sublinha. E fevereiro foi o mês que ditou que o evento ia mesmo acontecer: “praticamente quase todas as empresas parceiras do evento que foram contactadas para fazerem parte do projeto aceitaram associar-se ao tema da saúde mental”, aponta.

Ferramentas para a saúde mental e casos na primeira pessoa

O programa do evento é vasto e, para Diana Lavareda, todos os temas são importantes. “Vamos ter psicólogos a falar de ansiedade, depressão e burnout, bem como da nossa personalidade, dando-nos conhecimento e ferramentas para lidarmos com estes temas e ajudar na prevenção dos mesmos. Vamos ter uma conversa aberta, mais emotiva, com colegas que vão falar em público, pela primeira vez, sobre como passaram por estados de ansiedade, depressão e burnout e sobre como deram a volta na sua vida. Vamos ter palestras sobre gestão emocional – um tema importantíssimo e com uma lacuna tão grande nos profissionais de saúde animal; vamos também aprender como podemos melhorar a nossa performance enquanto profissionais, de forma a evitar o declínio da nossa saúde mental; e vamos ter igualmente uma palestra sobre turnos noturnos e como minimizar o impacto deles na nossa saúde”, resume.

Basicamente, “este programa está direcionado para saúde mental e para o desenvolvimento pessoal. Temos de estar bem para cuidar bem”, frisa Diana Lavareda, que é médica veterinária há nove anos e que tem como áreas de interesse a oncologia e também a neurologia clínica.

saúde mental
Diana Lavareda é a organizadora do evento.

Outro facto que se reveste de grande importância é que “pela primeira vez, vão juntar-se as três instituições em Portugal na mesma mesa redonda: a Ordem dos Médicos Veterinários, o Sindicatos dos Médicos Veterinários e a Associação Portuguesa de Médicos Veterinários Especialistas em Animais de Companhia (APMVEAC) – que vão debater a atualidade da saúde mental em Portugal na comunidade veterinária”, aponta. “Vamos poder ouvir sobre que estratégias estão a ser criadas por estas instituições para ajudar os profissionais de saúde animal”.

Sobre o que espera deste evento, Diana não tem dúvidas: “antes de tudo, espero que seja um sucesso. O auditório onde vai acontecer o Vet Mental Summit conta com 165 lugares sentados e gostava mesmo de ver este auditório cheio no dia 14 de junho. Significaria que organizá-lo foi um sucesso e daria a sensação de missão cumprida”. Quanto aos caminhos que pode abrir, “poderá tornar-se um evento reconhecido a nível nacional, que num futuro pode adquirir outras proporções em termos de dimensão”, diz a médica veterinária, que gostaria que o evento tivesse uma edição anual. “Há inúmeros temas importantes na área da saúde mental que podem ser falados. Daria programas para muitos anos”.

Desde pequena que Diana Lavareda tem uma paixão por animais. “Tive o privilégio de crescer no campo e, por isso, lidava diariamente com várias espécies animais. Desde sempre tive cães e gatos, vários animais de quinta, e mais tarde, já na adolescência, também tive um cavalo”, conta. Por isso, tudo surgiu muito naturalmente na hora de decidir o seu rumo profissional. “Aos 17 anos, quando tive de escolher um curso superior, escolher veterinária foi uma decisão fácil e que fazia todo o sentido, dada a paixão pelos animais e pela ciência”.

“Ninguém nos prepara para a verdadeira realidade”

É essa paixão que também a leva a querer ajudar a melhorar a saúde mental da comunidade profissional onde se insere. “Quando decidimos ser médicos veterinários, essa decisão é muito baseada no gosto que sentimos pelos animais e na esperança de conseguirmos cuidar deles. Durante o curso aprendemos muito sobre tratar doenças, impulsionar a saúde dos animais, mas ninguém nos prepara para a verdadeira realidade que um médico veterinário vai enfrentar: fadiga por compaixão; lidar com expectativas de clientes; lidar com a morte e eutanásia; lidar com a frustração de não conseguir salvar um animal; excesso de trabalho; horas extras não remuneradas; ordenados que não são bem pagos; falta de tempo para a vida pessoal; stress; e síndrome de burnout”, explica.

saúde mental
Comunidade veterinária sofre de grande stress.

“No geral, os ordenados em Portugal são baixos. E isto é válido para muitos tutores que, infelizmente, não têm condições financeiras para pagar cuidados veterinários aos seus animais, como também o é para os próprios profissionais de veterinária que não são remunerados de acordo com as responsabilidades que têm”, lamenta Diana Lavareda.

Uma ajuda na saúde mental: não fingir que está tudo bem

E como pode um profissional proteger-se do burnout e potenciais pensamentos negativos ou mesmo tendências suicidas? “Deve procurar apoio profissional. Falar. Não esconder. Não fingir que está tudo bem. Saber mudar de local de trabalho se o ambiente é tóxico. Deve apostar no seu desenvolvimento pessoal, porque se nos tornarmos pessoas mais capazes, mais eficientes, mais gestoras de tempo, mais comunicativas, mais respeitadoras dos nossos próprios limites… tenho a certeza de que seremos mais saudáveis mentalmente”.

Diana Lavareda considera que a prevenção de problemas de saúde mental deveria começar logo na escola, nas crianças. “Somos uma sociedade que não sabe gerir emoções. Não sabe lidar com situações de stress. Muitas das vezes temos dificuldade em comunicar com o outro. E isto é um problema base, uma lacuna, que vai além dos profissionais de veterinária. Seria interessante, um dia, ver o nosso sistema de ensino adaptar-se às reais necessidades de aprendizagem da sociedade. Falando especificamente de veterinária, seria importante incluir uma disciplina que se focasse na saúde mental”.

Por isso mesmo, “o Vet Mental Summit foi criado com este propósito de promoção de saúde mental. Tornar-se um evento anual seria mais uma ferramenta de ajuda à comunidade veterinária”, remata.

Percorra a galeria para ver a comunidade veterinária em ação.

ver galeria

ÚLTIMOS ARTIGOS DA PiT