Saúde

Trauma: cães resgatados das cheias no Brasil continuam a “nadar”

Mesmo depois de salvos e de estarem na segurança de um colo, continuam a dar às patas. Veterinários explicam comportamento.
Resgate em curso.

Os temporais que assolam o estado brasileiro do Rio Grande do Sul desde o final de abril têm sido arrasadores. A semana passada trouxe algumas “abertas” no tempo, mas a chuva está de volta, e os números da tragédia têm vindo a engrossar diariamente. Os últimos dados apontam para 149 mortos, mais de uma centena de desaparecidos e cerca de mil feridos nos 452 municípios afetados – de entre os 497 existentes. Os esforços para encontrar sobreviventes prosseguem e perto de 80 mil pessoas e mais de 11.00 animais já foram resgatados. Por entre os animais resgatados, muitos cães estão a evidenciar um trauma: continuam a dar às pernas, tentando nadar, como se ainda estivessem dentro de água.

Um vídeo – que já se tornou viral – de um cão resgatado em Canoas, na região metropolitana de Porto Alegre, mostra isso mesmo. Um pequeno cão preto, ao colo de uma protetora, tenta movimentar as patinhas como se ainda estivesse a nadar. “Os animais também passam por traumas psicológicos. Alguns cães continuam a nadar, mesmo após serem resgatados. Já imaginou por quantas horas esses guerreiros ficaram nadando, sem entender nada do que está acontecendo? Que Deus livre as pessoas e animais desse trauma”, ouve-se no vídeo

Há relatos de muitos outros voluntários sobre mais cães que estão a ter o mesmo comportamento, já depois de terem saído da água e terem sido salvos, havendo um outro vídeo dessa situação que tem estado igualmente a ser muito partilhado. E o que pode explicar este reflexo dos nossos amigos de quatro patas?

 

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Cães continuam a nadar porquê?

Joice Peruzzi, médica veterinária comportamental, alerta que não há estudos específicos sobre o tema, mas aponta, em declarações ao “G1” – o portal de notícias da Globo – motivos plausíveis para esta reação dos patudos. “O comportamento de nadar em cães normalmente está relacionado com o contato com a água. Então, muitas vezes, depois de ter estado a nadar, se permanecer molhado por mais tempo, poderá continuar com esse reflexo. Mas também se pode dever ao facto de ter feito aquele comportamento repetitivo durante muito tempo, pelo que continua a fazê-lo”, explicou.

Também o biólogo Kayron Passos, especialista em bem-estar animal, refere o mesmo motivo em declarações ao “UOL”. “É muito provável que os animais, como o cãozinho que continuou ‘a nadar’, estejam em estado de choque”, sublinha. “Sempre que nosso sistema nervoso ‘aprende’ algo novo, ele cria uma nova sinapse”, diz o biólogo, explicando que sinapses são conexões entre neurónios que podem determinar aprendizagens, memórias, mecanismos de ação fisiológica.

“Quando passamos por uma situação traumática, o nosso cérebro pode associar essa situação a uma resposta, como gritar, chorar, comer demais, não fazer nada ou realizar um comportamento instintivo de sobrevivência — no caso do cãozinho, nadar. Quando ele se encontra em estado de choque traumático, o sistema nervoso está preso àquela situação e, consequentemente, a repetir as conexões estabelecidas”, aponta ainda Kayron Passos.

É também essa a opinião da médica veterinária Michèle Venturini, que diz que os cães podem ficar a “nadar no ar” devido ao tempo excessivo na água: “o facto de os cães terem ficado muito tempo a nadar, o stress, pode contribuir para isso”.

Muitos cães continuam ainda a ser resgatados com vida. Mas não só. O cavalo Valente Caramelo, retirado no final da semana passada de cima de um telhado – onde permaneceu durante pelo menos quatro dias – deixou muito felizes todos os que acompanharam a demorada operação de salvamento, sendo o animal tido agora como o símbolo da resiliência do povo gaúcho.

Percorra a galeria para ver algumas fotografias do resgate de Valente e de muitos outros animais desde o início das cheias no Rio Grande do Sul.

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