Sempre que visito um abrigo, despeço-me de cada um deles, pois penso, e espero, que não os verei tão cedo — a não ser nas fotografias que irão ser partilhadas com as suas futuras famílias. É algo que me conforta pensar. Um amigo disse-me, uma vez, que existe uma família para cada animal, se o tempo e a doença não o levar. Basta acreditar. E eu quero acreditar.
Há três anos, visitei pela primeira vez o abrigo da Pravi, de Albufeira, e foi um dia que nunca irei esquecer. Com pouco fizeram muito e todos os dias faziam um pouco mais. Para muitos dos que ali vivem, foi o maior castigo que tiveram porque viveram toda uma vida em família e, pelas mais variadas razões, foram abandonados. Para outros, foi a primeira casa que tiveram, assim que foram retirados do lixo, da berma da estrada e ali abriram os olhos. Para o Botão foi algo diferente. Para mim seria também.
No meio de todos aqueles animais, estava o Botão. Para ele aquela era a sua realidade. Crescera e vivera na rua desde sempre ao cuidado de humanos a quem a vida também não sorriu. Tal como eles o Botão foi um sem abrigo até que foi para aquele abrigo. Depressa ganhou o carinho de todos pela sua personalidade e pelo seu ar dengoso. A idade foi-se desenhando no seu corpo e, num mundo onde se procuram cachorros, os Botões ficam para o fim, vendo a vida avançar.
Os sorrisos que me deu e a sua jovialidade, apesar da idade, conquistaram-me de imediato. Não tardei a editar as fotografias. apressando-me a publicá-las rapidamente. Os likes, comentários e partilhas acotovelaram-se para ver quem chegava primeiro mas o que queríamos que chegasse não veio: uma família.
Fui acompanhando o seu percurso ao longo dos anos, querendo sempre saber novidades dele, mas pouco havia a acrescentar ao “Ele está bem. Continua à espera”.
Este ano voltei ao abrigo para fotografar os seus residentes. Fui recebido por muitos que já conhecia e ainda ali estavam. Fui recebido com timidez por outros que ainda se estavam a adaptar. Num dia cheio de pessoas que se juntaram para ajudar em tudo o que fosse necessário, quase não tive tempo de perguntar pelos que conhecia. No final da sessão chegou ele. O meu Botão.
Já não tinha a mesma jovialidade. O cão que antes saltava agora teve de ser ajudado. Os pelos brancos ganhavam cada vez mais terreno no seu dorso e o focinho começava a ganhar mais rugas. A cabeça imponente de outrora agora apresentava-se cabisbaixa. Não era o mesmo Botão. A idade avançara e talvez o seu coração também perdesse um pouco da sua vitalidade por ver a esperança ser cada vez mais pequena. Abracei-o e segredei-lhe “Vamos tentar mais uma vez”.
Ergui os braços, arregacei as mangas e preparei-me para a batalha. Num mundo em que podemos ir a todo lado sem sair da cadeira pensei na melhor forma de usar as redes sociais para recontar a sua história. Num mundo cibernético em que todos se atacam gratuitamente, todos têm mestrados de tudo e mais alguma coisa enquanto apenas a escolaridade mínima em educação, como poderia inserir aquela história para cativar quem lhe pudesse dar uma oportunidade?
Tinha as fotos do antes e depois e só precisava de poucas frases. Quando terminei e publiquei, desliguei o computador. Sonhei com ele naquela noite e naquela expressão triste que pedira para não o deixarem morrer ali. O fim de semana passara quase tão depressa como os anos por aquele cão e na segunda-feira tinha muitas mensagens, partilhas e desejos de boa sorte.
Mais uma vez, a Internet parecia ter cumprido a sua missão de espalhar a mensagem sem surtir efeito. A meio da manhã, a resposta veio por um ligeiro toque na porta. Era uma amiga que trazia o telemóvel na mão com a foto dele no ecrã.
— Estou a tentar falar contigo desde sábado… quero conhecer este menino. Quero muito conhecê-lo. Vi as fotos, a história e quero muito conhecê-lo.
Naquela segunda-feira que amanhecera nublada, o sol espreitou pelas nuvens e deitou todo o seu brilho naquele cantinho de Albufeira. O Botão não sabia que a sua vida iria mudar naquele dia. Não suspeitava que iria entrar para um carro com um peitoral novo e dormiria nessa noite pela primeira vez numa casa que chamaria de sua. Não sabia que veria, pela primeira vez, uma mantinha comprada para si e abraços que o fariam renascer. Tudo foi novo para ele. Ele próprio rejuvenesceu.
Os dias seguintes foram marcados por novas descobertas. Os passeios por uma rua nova com novos prédios e pessoas. O cheiro de coisas novas para tentar roubar e comer. Os passeios pelo campo onde sentia a terra húmida dar-lhe as boas vindas. Os videos que recebi não traziam o Botão envelhecido que vira. Mostraram um cão que renasceu, que ganhou uma nova vitalidade e abraçou uma nova vida quando tudo parecia desmoronar. Dar uma oportunidade a um cão sénior de poder terminar os seus dias no seio de uma família é um ato de amor incondicional.
É para estes finais felizes que as redes sociais servem: para unir pessoas, contar histórias, fazer apelos e juntos contribuirmos para finais felizes dignos de muitos likes, partilhas e comentários, porque a verdadeira rede social somos nós. Sê muito feliz, meu querido Botão. Continuaremos a lutar por todos os que, como tu, merecem o seu final feliz.
De seguida, carregue na galeria para ver algumas fotografias de Botão.
AMIGOS PARA SEMPRE by Carlos Filipe é uma rubrica quinzenal da PiT, em que o fotógrafo Carlos Filipe, amante da causa animal, partilha com os nossos leitores o que viveu com os cães que fotografou e com quem privou. “Cães imperfeitos”, esquecidos pelo tempo e desprezados por quem quer adotar, por serem velhos ou doentes e exigirem cuidados.